sábado, setembro 14, 2013

* 03/III - JUVENTUDE REBELDE


*


 Imagens: Internet
 


 
 
Sentada com as pernas cruzadas e as mãos abertas nas virilhas, Nathalie pergunta:
- Então, Morana, pelo que entendi, anda um tanto desiludida com os homens.
 - Ô, raça! Vivem para conspirar contra a gente, não é mesmo?
- Talvez.
- No momento, Nathalie, eu não estou a fim de encarar nenhum relacionamento mais ajuizado. Nada de sonhos, muito menos obsessão.
- Sério?
- Quero ficar assim por certo tempo.
- Não acredito?
- Pode acreditar.
- Poxa!
- Casei apaixonadíssima. Mas, logo vi que casamento não cumpre o que promete, apesar do meu esforço para que tudo desse certo. Ai, muito confuso!
- Pena.
- Ihhh!!!... Tudo diferente do que eu havia imaginado. Nada é o que parece ser, ‘né? Consegue ser ruim para todo mundo.
- Outro motivo para não ter arranjado filhos?
- Também. Ter uma cria pelo simples fato de tentar salvar um matrimônio não é legal. Ainda bem que isso não aconteceu.
- Tem razão.
- Na verdade, custei a perceber que meu casamento durou o dobro do que deveria. Só quando me conscientizei disso, deixei de ser boba para iniciar uma maratona de mudanças na vida.
- Imagino que deve ter penado muito.
- Ai, que sofrimento!
Pausa. Nathalie curiosa:
- Quer desabafar? Falar comigo de seu tempo de casada?
- Nem sei se vale a pena.
- Claro que vale. Vamos, põe os demônios para fora, amiga. É bom.
- Ombro amigo?
- Ã-Hã. Conta aí.
- Tem razão.
- Então, fala.
- Nathalie, nunca planejei nada na vida. Nunca. Tudo, de bom ou ruim, acontecia ao acaso. Mas, se quer mesmo saber, posso dizer que meu casamento foi um desastre. Nada mais ridículo! Sonhos e muitos planos frustrados.
- Sério?
- Deixou feridas profundas, uma loucura! Paguei preço alto por teimar em viver com uma pessoa que não estava nem aí para nosso relacionamento.
- Puxa vida! Pensava que esse tipo de coisa, ficar com quem nos despreza, era coisa de adolescente. E adolescente burra!
- Amei de paixão esse cara. No princípio era tudo azul, ele era o máximo para mim. Representava o belo, o gracioso, o sublime, o encantado... Tanto que tinha ciúmes até do que ele pensava.... Enfrentei um calvário, acredita?    
- Imagino.
           - Por isso, aquela velha opinião de que ciúme não faz parte do amor, como muitos pensam, está correta. Nada mais certo, ciúme é uma doença que deixa armadilhas no meio do caminho. É como erva daninha que, se não tiver cuidado, sufoca qualquer romance. Foi o meu caso.
         - Sem dúvida.
- Como mulher ciumenta demais encontra sempre mais do que procura, aconteceu o impensável entre nós. Não demorou tive uma surpresa bem amarga ao descobrir coisas que levaram nossa relação para o fundo do poço.
- Nossa! Tão grave assim?
- O fato é que ele dava suas escapadas com uma vizinha que morava no nosso prédio. Pior, o safado era amigo do marido dela, acredita?
A jovem fita sua amiga um tanto quanto encabulada.
- Sacanagem!
- Jogo sujo, eu vivia uma mentira.
- Putz!
- Faz parte do caráter de cada um. Na verdade, gostamos que as coisas sejam como queremos, mas o tempo ensina que não temos controle absoluto para além de nossas próprias ações. A vida é mesmo uma montanha russa de altos e baixos. Não é assim?
Pausa. Nathalie:
- Como descobriu?
- Ele foi deixando pegadas além da linha vermelha até que, um dia, falou tudo para mim. Direto, sem escalas.
- Que papelão! Deve ter sido um golpe para você.
- Um golpe sem tamanho. Machuca muito, tira do caminho.
- Ô peste!
- Fiquei chocada, claro. Não tem dor mais excomungada, afeta tudo.
- Imagino.
 - Daí para frente um mau-humor tomou conta de nossa casa, arruinou tudo de uma vez. Não suportava a presença dele nem ele a minha, uma tortura sem arremate. Tudo tão estranho que, no final, nem do marido dela ele tinha medo mais.
- Gente, vê se pode?
- Nada é mais amargo do que aguentar hipocrisia dessas, Nathalie. Mas, mesmo passando por poucas e boas, fui leal ao casamento até o poderoso chefão sair de casa e ir morar com a outra, a casada, que também, para evitar o pior, largou seu marido para viver com o meu.
- Lobos em pele de cordeiros!
- Kkkkkk! Lobos em pele de lobos, isso sim.
A jovem, indignada:
- Os homens! Ô raça! O homem já nasce com bula e manual de instrução para sacanear as mulheres. Mentem na maior cara de pau. E, pelo menos uma vez na vida, cada um precisa pegar a mulher de outro para se sentir realizado como macho, não é assim?
- Pior que é.
- Por que, Morana? Por quê?
- O quê?
- Por que não deu o troco?
- Era uma tonta, idiota mesmo. Perfeita imbecil.
- Querida, a bem da verdade, não tem coisa melhor para aliviar a sensação de derrota, ou tem?
Pausa. Morana:
- Julgo que, mesmo desprezada, eu gostava de brincar de família feliz. Arre! Talvez alimentava alguma esperança de salvar um casamento, que há muito já respirava por aparelhos.
- Essa não!
- O amor romântico, Nathalie, que povoa nossas mentes desde os tempos medievais, cria uma situação meio irreal no relacionamento em que vivemos nos tempos de hoje. Cada vez mais, as pessoas entendem que o amor desleal e omisso deve existir entre os casais, tolhendo o amor romanesco.
- Ruim, hein!
- Pois é isso. Quem nunca caiu numa esparrela amorosa dessa? Quem nesse planeta nunca embarcou nesses delírios sem planos, âncora ou bússola?
A jovem balança a cabeça, concordando. Morana:
- Ninguém. Cada um de nós deve ter sua historinha para contar.
- Acho que sim – reforça a jovem, balançando a cabeça continuadamente.
- Ai, me deixou em pedaços!
- Posso imaginar. As pessoas deveriam ser que nem cigarro, precisariam vir com a foto do mal que elas podem fazer às outras.
- Seria melhor.
- É o certo.
- Simone de Beauvoir falava que o anseio pela segurança no casamento é paradoxal à sobrevivência do desejo erótico, que o aconchego permanente é uma segurança frouxa e que o amor tem a ver com ter.
- Certíssima.
- Dei a volta por cima, graças a Deus. Digo sempre que foi uma derrota vitoriosa, porque casamento desse modo é como a vida, um dia tem que acabar.
- É.
- Ainda bem que esse mau sonho já passou.
- Passou?
- O tempo ameniza tudo, Nathalie.
- Ah, o tempo! Só ele mesmo para curar as dores, restaurar a alma e nos brindar aprendizado.
- Ã-Hã.
- Desaforo!
Pausa. Morana:
- Na ocasião em que ele saiu de casa, mesmo com tudo acontecendo de mau, a boba aqui ainda mergulhou numa fossa dos diabos. Acredita?
- Bolas, mesmo depois de tudo que sofreu?
- Coisa do psicológico.
- Mexe com a cabeça, sim. Compreendo – arremata Nathalie.
- Pesadelo desses provoca repercussão negativa por um bom tempo na vida de uma mulher, quando não afeta a pessoa para o resto da existência. Nada, nada legal.
- Como saiu dessa, Morana? 
- O ponto de partida é querer, querer muito sair da crise de sofrimentos, porque a gente quando está na pior, tudo conspira contra. Mais do que reconhecer a existência do caos, precisei de um esforço enorme para mandar tudo às favas e deixar a vida mais leve.
- Pior que é.
- Precisei de muita ousadia para abandonar a desordem interior instalada, e mergulhar na vida real com todos os seus riscos, desconstruindo e construindo tudo ao meu redor. Foi o que fiz, pensando que o erro pode mostrar que se aprende muitas lições.
Nathalie toma um pouco mais de vinho.
- Herói é quem dentro de si mesmo vai além, já dizia o poeta. Você encarou os desafios com coragem e venceu.
- Só Deus sabe como!
- É.
- Como dizem os filósofos, eu atropelei os sonhos, venci as mágoas, convivi com os fracos, suportei os falsos e hoje sei a força que tenho para enfrentar qualquer obstáculo na vida. É como uma catarse, seguida de um alívio imenso.
- Você é mil, Morana. Mil.
- Obrigada.
- Um dia li uma mensagem linda de Nietsche que falava isso também. Para o filósofo a pessoa para existir de fato, precisa alimentar das frutas do bem e do mal, não como antinomias, mas como manifestações da força mais elevada que compreende a ambos.
- Curto muito esse pensador.
- Eu também.
- Um brinde a Niet! – Morana levanta o copo de vinho, sorrindo.
- Tim-Tim!
Pausa. Morana:
- Através da filosofia dita por gênios como ele que aprendi que, para mudar o mundo e a sociedade, devemos começar por nós mesmo. É o ponto de partida. Se eu mudo meu comportamento, posso influenciar alguém que vai influenciar outras pessoas e, assim por diante – é aquela pitadinha de receita boa. Podemos semear afetos, colher sonhos e aplicar no dia a dia da sociedade. Concorda?
- Em gênero, número e grau.
- Então?
Depois de uma curiosa troca de olhares, Nathalie:
- No fundo, no fundo nunca pensou um dia reconciliar com o ‘ex’?
- Nem me fale! Esse homem me fez muito mal. Prefiro ficar longe dele. Não sobrou nada, evaporou-se. Quero que ele fique bem longe de mim e de minha família. Para mim, hoje ele é a pior pessoa da face da Terra.
- Claro.
- Cada coisa tem seu tempo de vida e a hora certa de se desfazer dela. Assim também é o casamento, tem seu tempo de validade.
- Sim.
- Estamos livres. Cada um cuida de sua vida como achar que deve ser. Mudei a maneira de pensar sobre mim e sobre o resto do mundo. A festa acabou mesmo, ponto final.
- Isso aí, Morana. Permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional. Desperdício de vida, não é?
- Certamente. O filósofo iluminista Voltaire comparou a vida a um jogo de cartas. Para ele, os jogadores devem aceitar as cartas que lhe foram dadas, porém, uma vez com elas, cabe a cada um a escolha e os riscos de como jogá-las.
- É.
- Joguei mal, querida.
Em seguida, a pintora fecha um pouco mais o sorriso, assegurando:
- Chega, não quero mais falar desse período negro de minha vida, mesmo com um coração que não tem lugar para ódio.
- Você quem sabe.
- Melhor virar o disco. Vamos falar de coisa boa, agora.
- Só mais uma coisinha. Pode me contar como fez para recuperar a autoestima?
Morana reabre o sorriso, estica o braço e segura por um segundo a mão da amiga, dizendo:
- Nada fácil. Pastei muito, menina. Com o tempo, aprendi que o ideal para recuperar a autoestima é se concentrar nos pontos fracos, aqueles que podem ser mudados e melhorados.
- Como é isso?
- O primeiro passo é identificar os comportamentos e as crenças negativas construídas durante sua vida. Coisas como acreditar que você é incapaz de realizar grandes projetos ou jamais vai conseguir bom parceiro na vida, devem ser bombardeadas, destruídas e jogadas no lixo. A partir daí, fica mais fácil apagar do seu dia a dia tudo que não contribui, em nada, para a gente ter uma vida harmoniosa e saudável.
- Ah, sim.
- Ser otimista e pensar, positivamente, em nossos objetivos são estratégias eficazes. De acordo com os especialistas, pessoas que dão um sentido à vida se sentem mais satisfeitas consigo mesmas, ficam até mais extrovertidas.
- Extrovertidas?
- Por aí. De bem com a vida, sorrindo mais.
Depois de tomar um pouco de vinho, Nathalie:
- Falando nisso, como anda seu horóscopo?
- Não leio horóscopo.
- Nem de curiosidade?
- Nunca.
- Acredita em premonição?
- Acho que não.
- Mas não se preocupe. Os astros me dizem que, em breve, alguma coisa boa pode rolar na sua vida sentimental, que vai te deixar muito feliz.
- Êba! Minha caçarola vai encontrar sua tampa?  - brinca Morana.
- Quem sabe?
- Por acaso tem uma bola de cristal em seu poder?
- Ã-Hã.
- Espertinha! Você bem sabe que qualquer mulher, sozinha depois dos quarenta, sonha um dia arrumar um namorado que não estrague sua vida e, sobretudo, seja capaz de cumprir tudo que o amor promete.
- Aí, aí você encararia?
- Evidente. Ainda tenho fôlego para muito afeto, muito achego. Praticar muito amor. Libertar-me dessa danada solidão.
- Você merece ser amada.
- Mereço, sim. Tim-Tim!
Risos. Depois de um suspiro profundo e demorado, Morana:
- E você, Nathalie, não tem mesmo namorado?
- Estou em outra, com diz a moçada: catando.
- Nem um rolinho?
- Quando animo, vou para as baladas e, se pintar alguma coisa significante, encaro como curtição. Só como curtição mesmo, um rolezinho. Nada sério.
- Pelo seu jeito, deve ser vidrada nos saradões com seus glúteos e bíceps bem definidos. Acertei?
- Errou. Não fazem meu tipo. Não suspiro por eles não.
- Não?
- Cambada de idiotas. Na galera são conhecidos por ‘tainhas’, rapazes com corpo de Tarzan e cérebro de galinha, cheios por fora e vazios por dentro, tipo boy magia que faz o que lhe dá na telha e, que não cansa de exibir sua ‘panca’ de conquistador, como todo mundo que quer ficar bem na foto.
- Háháhá!
- Têm habilidades para ser instáveis. Síndrome do pavão, sabe como é? Seduzem pelo simples fato de seduzir e depois abandonam a presa; adoram a caça, mas ficam entediados com a conquista.
- Puxa!
- Com eles o ‘babado’ é outro, Morana. Sem querer se prender a ninguém, normalmente, são poucos dóceis com as parceiras e, sobretudo, apressadinhos em tudo. Apressados crônicos, melhor dizendo. O negócio deles é tirar uma rapidinha, deixando a vítima quase sempre a ver navios. São as verdadeiras faces do malfeito.
Risos. Nathalie continua:
- A pressa é a maior inimiga da felicidade, ‘né?
- Sim.
- Morana, essas badalações apenas me distraem. Na verdade, as baladas não passam de um carrossel de ilusões, muito embalo e pouco conteúdo; um Oasis na vida de qualquer humano louco por sexo.  New Rave.  Só fica de fora desse delírio, dessa ebulição sexual quem quer. Desse modo, rola neguinho de todo jeito, querendo ficar numa transa alucinada ou apenas para se masturbar. A gente escapa de um e cai em outro.
- Chocante!
- Num lugar desses, a lubricidade é total, ampla e irrestrita para estremer a mente. É como se todos estivéssemos dentro de uma vitrine erotizada, ao alcance de um bando de malucos, oferecendo peças avulsas de nossos corpos: seios, bundas, pernas. Tudo. Dá até calafrios!
Pausa. Morana:
– Pior que deve ser assim mesmo. A juventude atual enxerga o sexo libertino como a entrada ao Paraíso e não como o motivo de ser dele expulso. Está mais interessada em satisfazer suas individualidades, para deleitar-se com os prazeres da carne, sejam eles quais forem. Não se dá conta de que a vida pede mais. Muito mais.
- Por aí, por aí. O mundo moderno oferece espaço para todo mundo curtir a nigtht do jeito que achar melhor, sem culpas nem traumas. Háháhá! Até mesmo para os coroas forçados a aceitar a ajuda de um viagrinha para levar sua vida em frente.
- Ah, esses homens! É o tipo que vive a idolatria da eterna juventude e do poder do dinheiro, da estética física e do prazer. Tolos!
- Não estão nem aí! Eles embarcam nessa onda, dispostos a fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não têm a mínima noção de quanto tempo de vida ainda lhe restam.
- Sem dúvida, Nathalie.
- Quero ser assim também quando chegar aos sessenta: animada, p’ra frente e pronta para encarar tudo na maior curtição. Afinal, sexo são quatro letrinhas que pingam, deixando a gente molhadinha, não é mesmo?
Risos. Morana:
- E quem mais frequenta as baladas?
- Circula gente de todo jeito. O espaço é invadido por tribos de vários tipos... Dos emos, das patricinhas, do indies, dos tranqueiros, dos marteleiros, dos punks, dos góticos... Cada um tem uma viagem, tem uma história. É para todo mundo.
- Casados também?
- Enxame deles.
- Já ficou com um?
- Quando aparece algum de boa lábia no meu caminho, se pintar um clima legal entre a gente e achar que vale a pena, encaro na maior. Eles trazem um papo mais centrado, o que a rapaziada de hoje fica no prejuízo.
- Mas...
- Dependendo, pode até rolar uma esticada um pouco mais íntima. Chope vai... Chope vem..., sabe como é, faz parte do show.
- Por questão óbvia, pensava que eles investiam nas mulheres um pouco mais velhas.
           Nathalie abre mais o sorriso.
- Que nada, estão aí dando ‘sopa’ por todos os lados, naquela de que a vida é curta, pois então vamos curtir um caso amoroso! São alpinistas, macacos velhos. Os barzinhos ficam abarrotados de homens comprometidos, que vivem caçando e jogando a rede em todas as direções, precisando provar que ainda são atraentes.
- Meu Deus, o ser humano é muito doido!
- Ah, tem outro detalhe: é o tipo de homem que também sente prazer com a traição, faz isso por necessidade de autoafirmação. Chega às raias do patológico.
- Curuis!
- Com eles, a coisa se desenvolve em três situações objetivas: desejo, excitação e orgasmo.
- Não é ser careta. Mas, pelo que me conta, vejo as baladas como um divertimento perigoso. Parece que negociar limites num lugar desses é quase impossível. Estou certa, Nathalie?
- Certíssima. A galera agita com força, vale o prazer, curtição apenas. Numa balada todos os gatos são pardos, todas as mentes são turvas, todas as memórias são embaçadas e todo pensamento, fora da moda, é descartável. A ordem é divertir, farrear e gastar muito dinheiro com extravagâncias. Horrorizar mesmo!
- Que loucura, menina!
- A moçada que nasceu entre as gravatas oitentistas e as guitarras de Kurt Cobain estão aí para sacudir e varrer os velhos conceitos, aprontar com adrenalina em dose dupla.
- Penso que, dentro dessa permissividade total, onde a superficialidade impera, os abusos podem provocar solidão social e sexual no futuro, não?
- De fato.
Morana assustada:
- Pelo menos, essa rapaziada se previne com preservativos?
- Nem sempre.
- Então como fica a prevenção? Falo de você, especialmente.
- Pelo menos, na minha galera, todo mundo anda ligado em camisinhas, pílulas, essas coisas! Droga pesada não rola. Não se preocupe, cada dia me afasto mais dessa zuação. Cada vez mais vejo que são pessoas absolutamente ninguéns -  ressalta Nathalie.
- Mesmo?
 - Estou noutra. Aos dezessete, dezoito anos puxava meu baseado com frequência. Pouco, mas puxava. Não nego. Fumei até maconha misturada com estrume de cavalo. Experimentei cocaína e não gostei, parece mais pastilha de menta!
- Vixe!
- Não tem como controlar adolescente, sabe como é?
- Fase difícil.
- Atualmente, penso largar até o cigarrinho comum, acredita?
- Bom ouvir isso.
- O vício de drogas proibidas tornou-se coisa do passado, Morana. Tratei e hoje sou uma voluntária para ajudar a quem quer sair dessa.
- Já esteve internada em alguma clínica?
- Sim, fiquei numa fazenda de recuperação, mas foi por pouco tempo.
- Como aconteceu?
- Certa vez, fui pega pela polícia portando papelotes de maconha. Tive que ligar para um tio advogado, que me livrou da cana. Meu pai gastou uma boa grana para evitar que eu respondesse como traficante, artigo 12, do Código Penal, que é crime hediondo e dá cadeia. Fiquei no artigo 16 e fui encaminhada para uma clínica para abandonar as doidices que praticava.
- Jesus!
- Passei do sonho ao pesadelo, mas estou curada. Não tenho mais aquela sensação de fissura, a vontade incontrolável de consumir drogas. Acabou mesmo, zerou. Deixei de ser um papel em branco que a droga montava como queria. Voltei a sonhar.
- Entrou no munda da droga por uma razão especial?
- Delírios de adolescente!
- Sei.
- Se antes eu pensava em liberação da droga para ser vendida nas farmácias, hoje eu tenho dúvidas. Quem garante que, mais adiante, o trem não vai sair dos trilhos e provocar um final trágico?
- Ninguém, Nathalie. As drogas são o maior pandemônio da vida contemporânea. Não há nada pior para uma família do que ter um ente querido envolvido em tal situação.
- Hoje que sei disso. Droga agora, apenas um vinho ou uma cervejinha de vez em quando. Ainda fumo, mas esse vício, prometo, está com os dias contados. No mais, finjo que curto para não ficar de fora da galera, da turma da escola. No fundo, no fundo...
- Então não mais frequenta as baladas?
- Às vezes pinto numa, mas faz um bom tempo que não curto mais. Vi que lá não oferece futuro para ninguém. Todo mundo quer mesmo só tirar um sarro. Obsessão doentia pelo prazer.
 - E o coração, Nathalie, como é que ficou?
      - Não ficou. Durante meu refúgio percebi que esses encontros funcionavam apenas como um prisma, pelo qual tentava direcionar meus próprios sentimentos. Hoje, penso ir mais fundo numa relação a dois, consciente de que a felicidade pede mais do que gozo. 
            - Sério?
            - Com mais propósitos, tudo fica mais interessante, a vida sexual também. No fundo, no fundo estou super-romântica, certinha, quietinha, zero da pá-virada. 
A pintora, antes de fazer qualquer avaliação, medita por um momento. Sentada no sofá, os pés poucos separados no chão, cotovelos apoiados nos joelhos, o copo quase vazio na mão esquerda, retoma o sorriso dizendo:
- Ainda bem, menina. Ainda bem.
 



 

 * FBN© 2013 * JUVENTUDE REBELDE  – III de “ENTRE ELAS" -  Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/3iii-portas-fechadas.html?zx=abc09927517af75a
 
 
                                                        - 03 -






04/IV – ENTRE ELAS

 
 Imagem: Internet
 


 
 
Nathalie olha para a pintora com ar de simpatia. Dá um tempo, espalma a mão sobre o peito, e pergunta:
- Pelo visto, então é mais uma solteira no pedaço?
- Acho que sim.
- Por opção, é claro.
- Na verdade, menina, a idade torna as mulheres mais exigentes, não é mesmo?
- Huuuummmm!
- Queremos mais. Muito mais. Muito mais do que um homem. Queremos um companheiro que nos reconheça como parceira e nos valorize, para mantermos a chama acesa.
- Sim, sim.
- Afinal, estamos trabalhando que nem eles, correndo atrás, pagando as contas, carregando embrulhos. Assim por diante.
- Pior que é.
- Quer saber, Nathalie, não me incomoda a ideia de estar sozinha. Para mim, sexo e afeto sempre estiveram misturados, portanto é melhor não se afobar nessas coisas. Penso todo dia sobre isso.
- Concordo em gênero, número e grau.
- Estou dando um tempo. Sem compromisso afetivo, tenho a chance de ouvir meu universo interior, de penetrar nos meus sentimentos mais profundos. Enfim, refletir sobre minhas angústias e, quando achar por bem, partir para outro lance com a autoestima lá em cima.
- Bacana.
- Mas isso, Nathalie, não quer dizer que estou totalmente fora do eixo. Muito menos querendo pôr um ponto final na minha vida amorosa, apenas uma vírgula, viu?
- Posso imaginar.
- Na verdade, são muitos pontos de interrogação na cabeça.
- Muitos?
- Sim, muitos.
- Então me conta essa história, Morana.
- Bobagens!
- Bobagens?
- Você não vai entender.
- Por que não?
- É de outro tempo, muito nova.
- Não acredito que me acha uma patricinha fútil, alheia a tudo, geração Coca-Cola!
- Não disse isso.
- Morana, por favor! Pode confiar, já vivi o bastante.
- Sério?
- Sério. É o dito-cujo, o casado, que anda mexendo com sua cabeça?
- Não, não. Ele joga com transparência. Não esconde que vive bem em casa e não quer abandonar a família. Se ele está mentindo não passa de uma mentirinha suave, murmurada entre beijos e abraços. Gosto disso.
- Então não pensa em ter uma relação mais estável com ele?
- Deus me livre! Por em quanto nem com ele, nem com ninguém. Isola.
- Fala sério?
- Essa coisa de homem debaixo do mesmo teto ainda me repugna, marcou muito. Melhor é ele ter suas cuecas para a esposa cuidar. Desse jeito fico bem mais confortável, não é mesmo?
- Ele raciocina assim também?
- Ora, Nathalie, para quem sabe ler um pingo é letra. Não tenho a menor dúvida.
- Você está certa, uma relação assim nunca pode ser muito intensa.
- Tem suas limitações, claro.
Nathalie com um risinho nervoso, observa:
- Está vendo, coisa dos homens casados? Nunca falam de planos futuros, querem só o bem bom. E mentem para caramba!
- Ã-Hã!
- Tanto que primeiro de abril deveria ser o dia da verdade, porque a mentira é um hábito diário das pessoas, principalmente, dos homens casados.
Risos. Morana:
- Paciência. Não me afeta em nada.
- Não mesmo?
- Quer saber? Não ligo. Essa relação sem compromisso até contribui para o meu equilíbrio emocional. É uma coisa só de corpo, curtindo tesão apenas. Assim, continuo com minha porta fechada, e a consciência de que estou batendo em outra porta mais fechada ainda. Tudo numa boa.
- Bem, se pensa desse jeito, quem sou eu para contestar.
- Assim é melhor, tipo light. Namorar é gostoso e faz bem para a saúde do corpo e da alma.
- Ora, salve!
- Tão bom como pizza de mozarela!!! – expressa a pintora em tom de brincadeira.
Com os braços cruzados, o cenho franzido e os olhos faiscando, Nathalie:
- Vem cá, você faz ou já fez análise, Morana?
- Eu! Não, não faço. Na fase de minha separação minha irmã me levou a um terapeuta. Aceitei porque julgava que todo o meu desejo tinha morrido.
- E aí?
- Na terceira sessão, desisti. Achei uma baboseira você pagar alguém para ser ouvida. Aquela coisa de ficar falando, feito boba, e uma pessoa ouvindo só pelo dinheiro que recebe. Não está com nada.
- Não?
- Nada melhor para resolver conflitos interiores do que abrir um bom diálogo com você mesma, se conhecer bem. Sobretudo, dar tempo ao tempo para curar as feridas. Foi o que eu fiz. De acordo com Nietzsche, nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo, porque o maior desafio da vida é descobrir quem você é.
- Filósofa!
- Gosto, sim. A filosofia ajuda. Dá caminhos.
Pausa. Nathalie:
- Como despertou seus desejos de novo?
- Bem essa é uma história longa. Quer mesmo ouvir?
- Ã-Hã.
- Depois da separação, tive dificuldades para resgatar a vontade de me divertir, principalmente, de fazer sexo. Tinha náusea. Preocupei com isso, evidente. Daí comecei a devorar livros e mais livros sobre o assunto, quase virei psicanalista, acredita?
Risos. Morana continua:
- Conversei muito com amigas separadas.  Foi ótimo. Depois de tudo, descobri que o desejo sempre esteve em mim, mas quieto, calado. Ele só ressurgiu quando encontrei coisas minhas que estavam apagadas, como a vaidade, a vontade de ter uma posição social e de despertar o desejo de outro homem também.  
- Legal.
- Háháhá! Imagino que se tivesse aceitado um divã para dar jeito nas minhas feridas, estaria até hoje deitada lá, remoendo meus conflitos internos.
- Talvez.
- Para dizer a verdade, eu nunca vi alta de quem faz análise.
- Nem eu – concorda Nathalie.
- Faz parte do jogo. Boba da mulher que vira dependente de um analista por qualquer coisa. A não ser em casos excepcionais, lógico.
- Sim.
- Dizem que, muitas vezes, da paciente para o profissional rola até amor platônico. Conheço amigas gamadas pelo seu terapeuta, tanto que não vivem sem uma sessão semanal. Pagam o olho da cara para deitar num divã e ser ouvida por ele.
Risos. Nathalie, curiosa:
- Então conheceu algum caso com caso nessa história?
- Sim, alguns. Mas, são profissionais atentos que não dão bobeira. Conseguem dar corda e controlar as rédeas numa boa, porque sabem eles que se ocorrer envolvimento amoroso a coisa não fica bem. Além de ferir a ética profissional, perdem a paciente.
- Háháhá! Até imagino uma situação dessas... Depois, a infeliz horroriza a vida do pobre analista, achando que o mesmo episódio pode acontecer com outras pacientes.
- Óbvio.
- A mente humana é uma caixinha de surpresas. Tudo pode ocorrer, ‘né?
Pausa. Morana:
- De fato. O analista acaba fazendo o papel de um simpático professor que ensina e aponta caminhos para resolver problemas emocionais. Isso é capaz de seduzir qualquer mulher mais carente.
- Principalmente.
- O importante, Nathalie, é você gostar de você, acreditar em sua capacidade de realização. Nunca se permitir ser levada pelo desânimo, porque não vale a pena. Em resumo: o negócio é preservar a autoestima como ferramenta importante para fortalecer nosso sistema imunológico emocional. Aí, você tem a chance de passar longe do divã de um psicanalista.
- Meu pai fala que a vida só é legal quando aprendemos a lidar com a gente mesmo. Só assim superamos limites.
- É por aí, menina. Outra coisa que me ajudou bastante foi a filosofia budista. Fiz um retiro de sete dias num templo em Curitiba. Muito bom. Os conselhos de Buda são práticos, dinâmicos e fluidos. Recomendo.
- Interessante. Pensou em se tornar monja?
Risos. Morana:
         - Jamais deixaria a vida que tenho em Belo Horizonte, mesmo apaixonada pela rica e complexa filosofia da meditação.
- Não tenho dúvidas quanto aos benefícios, mas eu não consigo meditar, acredita? Tentei várias vezes e me perco na falta de concentração.
- Não é difícil, só ter disciplina mental. Não há nada que o nosso esforço não realize. Meditar é treinamento, igual a dirigir.
- É?
- Hoje, mantenho prática diária de meditação. Tornou-se hábito. Isso me ajuda a enfrentar os problemas do cotidiano numa boa. Ajuda a desmontar certas perturbações interiores, o que nos facilita a encontrar compreensão maior das coisas. O que traz um bem-estar indescritível.
- Ai, quero aprender.
- É bom. Posso dizer que a meditação me ajudou a pintar com mais atenção, treinando minha concentração e experiências. Favorece meios para você afastar aqueles pensamentos que atormentam a mente.
Pausa. Nathalie:
- Morana, acho que ainda a melhor terapia é ser amada por alguém que você ama. Isso levanta qualquer astral e dá estímulo para sonhar e viver bem.
- Claro. Não existe coisa melhor do encontrar um homem que preencha os nossos sonhos.
A jovem, com um risinho nos lábios, alfineta:
- Preocupe não, se for o caso a gente capacita um. A meta da mulher de hoje é devorar machos constrangidos, inseguros e perplexos diante de tanta liberdade conquistada por nós, concorda?
- Olha!
- Para nós, como todos eles começam um relacionamento doces como uvas, nossa obrigação é pisoteá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam. E se tornem uma boa companhia para o jantar.
Morana solta uma gargalhada.
- É isso aí, mocinha. Abaixo o macho empedernido dos anos 50 e o metro sexual vaidoso dos dias de hoje!
- Viva!
- Mesmo assim, Nathalie, quando passar esse estágio de sozinha, eu desejo encontrar alguém que me ame com afeição e que seja um homem de bem com a vida. Todo mundo sabe que solidão nunca foi boa companhia para ninguém.
- Homem?
- Sim. No fundo, no fundo, como toda mulher, ainda sonho achar um homem charmoso, o puro objeto do desejo. Um cara que se interessa por cultura, esportes e uma boa conversa em torno de uma mesa com torradas e chá verde.
- Que mais?
- Que também saiba cozinhar, que goste de flores e de animais, de vinho e de um moletom confortável para caminhar comigo.
- Só?
- Que senta no banco do carona e dorme, confiando na mulher que conquistou para levá-lo a qualquer lugar do mundo onde possam sonhar e ser felizes.
- Não está querendo demais?
- Querida, esse homem é o meu sonho de consumo. Será que não existe?
Risos. Nathalie:
- Um cara assim só mesmo no sonho ou na telinha da televisão... Utopia pura, querida.
- Coisa cada dia mais rara, não é mesmo?
A jovem revira na poltrona, dizendo em voz docemente alterada:
- Morana, veja bem: os homens bons são feios. Os homens bonitos não são bons. Os homens bonitos e bons são gays. Os homens bonitos, bons e heterossexuais estão casados...  
- Epa!
- Os homens que não são bonitos, mas são bons, não têm dinheiro – prossegue Nathalie. - Os homens que não são bonitos, mas que são bons e com grana, pensam que só estamos atrás de seu dinheiro. Os homens bonitos, que não são bons e heterossexuais, não acham que somos suficientemente bonitas. Os homens que nos acham bonitas, que são heterossexuais, bons e têm dinheiro, são covardes. Os homens que são bonitos, bons, endinheirados e, graças a Deus heterossexuais, são tímidos e nunca dão o primeiro passo. Os homens que nunca dão o primeiro passo, automaticamente, perdem o interesse em nós quando tomamos a iniciativa. É isso, copiou, amiga?
- Vixe! Quem disse isso?
- Uma mulher bastante inteligente e observadora da raça na Internet. Não quis dar crédito ao manifesto, preferiu o anonimato.
- Oh, Nathalie, pior que acertou em cheio!  Lembrei até de uma piadinha que ouvi essa semana.
- Qual?
- Viajavam num carro um homem perfeito, uma mulher perfeita e Papai Noel. Houve um acidente e apenas um viajante sobreviveu. Sabe qual?
- Nem imagino.
- Há... Há... A mulher perfeita, claro. Não existe papai Noel, muito menos homem perfeito.
- Boa, Morana. Boa.
- Quem nesse mundo entende os homens?
- Ninguém, ‘né? Nem Freud se atreveu a explicar.
- Nathalie, não quer dizer que me livrei da máfia dos homens, porque minha libido é turbulência pura, uma montanha russa. Só que não sou mulher que fica criando expectativas.  
- Duas. Também sou roxa por sexo.
Risos. Morana:
- Até porque acabou o tabu da mulher não assumir que sente vontade de fazer sexo. Do jeito e com quem quiser, não é mesmo? A questão é que não há homens interessantes disponíveis na praça. Já passei meses sem ficar com alguém, porque não tenho paciência para aturar homens sem cabeça.
- Duas. Também estou nessa.
- Acredito na sorte. Um dia vai aparecer um homem legal na minha vida – ressalva a pintora.
- E será que a sorte acredita em você, Morana?
- Eis a questão. Melhor acreditar naquilo que deixa você mais tranquila, não acha? Quem sabe Santo Antônio me dá uma forcinha.
- Espero que vocês se entendam.
- Tenho fé, Nathalie, tenho fé.
- Meio caminho andado, viu?
- Posso dizer que, hoje, estou vivendo uma verdadeira homeostase.
- Que isso?
- Equilíbrio. A mente está calma, o coração bate com coerência cardíaca, respiro com tranquilidade. Enfim, não estou estressada.
- Então o estresse é a ruptura desse equilíbrio?
- Principalmente.
- Quer saber, Morana, você não acha que a conversa está começando a ficar séria demais? Vamos falar de coisas de melhor astral e arejar os pensamentos... Vamos?
- Acho ótimo.
 



 * FBN© 2013 * ENTRE ELAS – Capítulo IV - Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2006/12/iv.html

 

- 04 -