quinta-feira, setembro 12, 2013

* 07/VII - EM UM SÓ TOM

 
*
 
 
Imagem: Internet
 





No dia seguinte, Nathalie chega na hora marcada. Vestia calças jeans, blusa polo branca e os cabelos ligeiramente aloirados. Nas faces ruborizadas pelo sol, quando ria, duas covinhas refletiam um charme todo especial. E, no braço direito, usava duas fitinhas do Senhor do Bonfim.

Morana recebe a amiga com um sorriso amável.

- Oi, tudo bem?

- Tudo.

- Está tão bonita, garota!

- Obrigada.

- Tudo isso só para me ver?

- Para quem mais?

A pintora segura o seu braço. E ela abre mais o sorriso, revelando:

- Senti saudades.

- Eu também. Entre.

- Merci.

- A boa notícia é que seu quadro está prontinho. Só embalar e levar. Vamos até o atelier.

Nathalie surpreende-se ao ver de novo a obra:

- Nossa! Ficou mesmo divino, querida.

- Acordei de madrugada e trabalhei um pouco mais os seus olhos. Só ontem, notei que eles têm mais brilho.

- Você é incrível, Morana!

- Pequenos detalhes que só a convivência nos ajuda a perceber. Bem, promessa cumprida, e um acerto de contas com minha alma.

- Arraaaasou!

- Hummm!

- Merece uma comemoração. Ainda tem o vinho, ou vamos para um barzinho celebrar?

- Não precisa, tenho mais garrafas.

Nathalie beija as mãos da pintora:

- Fantástico! Fique sabendo que você e seus pincéis me seduzem.

- Mais um motivo para brindar com um bom vinho.

Em pouco tempo, a estudante de arquitetura se aloja no sofá grande da sala. Morana:

- Fique à vontade, Nathalie.

- É o que farei.

- Vou buscar o vinho.

- Tudo bem. Tudo bem.

Em instantes, a pintora volta com uma garrafa da bebida, um pratinho de amendoim torrado e os copos cheios, tudo numa bandeja.

- À nossa alegria, Nathalie!

- À nossa saúde! Tim-Tim.

 - Tim-Tim.

Depois de tomar o vinho, Nathalie ressalta:

- Gosto muito de sua casa, Morana! Encontro aqui um clima que me sossega a alma, o corpo também. Flui boa energia.

- Acha mesmo?

- A atmosfera é de paz, de harmonia. Tudo no seu lugar.

- Um pouco de mania de organização, reconheço. Mas pode usar e abusar de tudo, sem frescura.

- Êba!

- Quer dizer que posso até mudar para cá?

- Gostaria?

- Brincadeira, viu?

- Ã-Hã.

Pausa. Nathalie:

- Por que me olha assim?

- Nada.

- Ai, amiga, de ontem para cá ando com os miolos minhocando, mais do que o normal – confessa a estudante.

- Que foi?

- Hummm!

- Amor novo no pedaço?

- Acho que sim, Morana. Passei o dia todo matutando.

- Então é coisa séria.

- Muito.

- Bem, estou aqui para oferecer um ombro amigo.

- Que bom. Minha alma está mesmo pedindo um ombro para deitar a cabeça.

- Tipo colo de mãe?

A jovem abre mais o sorriso:

- Talvez não. Quero falar de saudade de alguma coisa que nunca vivi com você, mas é como se tivesse vivido. Sabe como é?

- E por que não faz isso? Sou toda ouvidos.

- Você dá um colinho para sua amiga?

- Pobrezinha!

- Posso?

- Vem cá. Vou abrir espaço para um aconchego, vem.

- Hummm, é tudo que quero agora!

Imediatamente Nathalie chega seu corpo para junto da pintora e deita a cabeça no seu colo, consumida por um fogo estranho que circulava em suas artérias, indo e voltando sem cessar, formigando.

- Ai, que delícia, Morana! – expressa contente a garota.

- O quê?

 - Seu colo. Quente e macio, agradável.

- Gostou?

- Bastante. Ai, quantas dores um colinho pode curar?!

- Hummmmmm!

 – Morana, você sempre foi assim com esse jeitinho de mulher tranquila, doce e com um sorriso lindo nos lábios?

– Desde menina faço o tipo mais comportadinha. Nunca fui uma garota rebelde, de personalidade forte.

– Pessoas desse modo encantam mais, sabia?

 – Pode ser. Costumo dizer aos meus alunos que o bom humor é contagiante. Sorria e veja como as pessoas vão tratar você melhor. Sem falar que as pessoas rindo ficam mais bonitas, charmosas.

– Deve ser por isso que gostamos de admirar gente bonita, não é mesmo?

 – O belo atrai e pesa na balança, já dizia Platão. Beleza conta ponto, é essencial, Nathalie.

– Sempre.

 – Os cientistas afirmam que a beleza nos outros é um indicador importante de saúde e de características que desejamos ter.

– Por aí.

 – Garantem que nosso cérebro tem em seu sistema um detector automático de beleza. Toda vez que ele é ativado, sentimos prazer. Por exemplo: quando vemos alguém bonito, logo uma luz começa a piscar no cerebelo, dando o alerta.

– Verdade?

– E não faz a menor diferença se a pessoa admirada é do sexo oposto ou não. De qualquer jeito, o belo atrai – afiança Morana.

– Então é isso?

 – Isso o quê?

– Nada não. Pensei alto.

- Em quê?

 - Nada, esquece.

– Fala. Pensou em quê?

 – Tudo bem. Eu estou pensando que você é uma pessoa muito bonita, sem defeitos, por isso atrai tanto.

– Nem tanto, Nathalie. Tenho minhas falhas, sim.

– Por exemplo?

– Tenho fama de perfeccionista, e sou mesma. Fico muito estressada se as coisas não funcionam do jeito que eu gostaria. Isso é defeito.

 – Nem tanto.

 – Busco na minha vida o equilíbrio, o que é bom, porque me faz lidar com as situações de forma mais centrada. Tenho conseguido isso, graças a Deus.

 Pausa, Nathalie:

- Ai, que colinho mais aconchegante!  

- Gostou?

 - Muito.

- Bom ouvir isso.

- Carinho inspira carinho.

- Ã-Hã.

- Morana, você tem um olhar tão doce que acalenta e, ao mesmo tempo, atiça a imaginação. Sabe disso, querida?
         - Nunca me falaram.

- Não?

- Não.

- Pois tem. Ah, ia me esquecendo de que trouxe a cópia de um verso de Mário de Sá Carneiro para ler para você ouvir, quer?

 - Sá Carneiro, amigo de Fernando Pessoa?

 - Ele mesmo. Dizem que eles foram mais longe.

- Não sei.

- Bem, é sobre o beijo que quero falar. Posso recitar?

 - Claro. Claro. Adoro poesias, adoro beijos.

A jovem retira do bolso da jaqueta uma folha de papel com os versos, limpa a garganta e começa a recitar:

 

BEIJOS

 

Beijar! Linda palavra!… Um verbo regular

Que é muito irregular

Nos tempos e nos modos…
Conheço tanto beijo e tão diferentes todos…

Um beijo pode ser amor ou amizade

Ou mera cortesia,

E muita vez até, dizê-lo é crueldade

É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe

É o mais nobre dos beijos,

Não é beijo de desejos,

Valor maior ele tem:

É o beijo cuja fragrância

Nos faz secar na infância

Muita lágrima… feliz;

Na vida esse beijo puro

É o refúgio seguro

Onde é feliz o infeliz.

 

As flores também se beijam

Em beijos incandescidos

Muito embora não se vejam

Os ternos beijos das flores

Quando tudo prometia calmo

 

Eis mais uma briga,

Desta vez diretamente de meus versos, como (e para)

Sempre, não somente ao amor ideal:

A alma, nossa vida, nosso igual.

 

Um beijo de amor é delicioso instante

Que vale muito mais do que um milhão de vidas,

É bálsamo que são as amais cruéis feridas,

É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!

 

Não é um beijo puro. É beijo estonteante,

Pecado que abre o céu às almas doloridas.

Ah! Como é bom pecar com as bocas confundidas

Num desejo brutal da carne palpitante!

 

Os lábios sensuais duma mulher amada

Dão vida e dão calor. É vida desgraçada

A do feliz que nunca um beijo neles deu;

 

É vida venturosa a vida de tortura

Daquele com a boca unida à boca impura

Da sua amante queria, amou, penou, morreu.

 

Um beijo pede-se e dá-se,

Não vale a pena corar.

 

 

Morana aplaude:

- Lindo. Lindo. Ele é mesmo um poeta muito bom.

- Excelente.

- Instigante, também.

- Ah, sim.

- Agora, Morana, fale coisinhas gostosas para mim.

- O que, por exemplo?

- Que sou sua melhor amiga.

Morana afunda os dedos nos cabelos da estudante.

- Oh! Disso você já sabe.

- Tem várias amigas assim do coração?

- Amigas mesmo, poucas.

- Poucas?

- Sim, poucas. Mas, são amigas que sei que posso contar um dia.

- Como eu?

- Sim. Amizade é como árvore plantada com amor, nenhum vento derruba. Quem planta árvores, cria raízes. Quem cultiva bons amigos, também.

Nathalie aquiesce com a cabeça, concordando. Ergue um pouco o corpo, leva o rosto até perto do de Morana, beija a ponta do seu nariz e volta a sentar na outra poltrona.

- Então, Morana, posso fazer uma pergunta indiscreta?

- Indiscreta?

- Penso que sim.

- Vamos lá.

- Você amaria uma mulher?

- Amo várias. Cultivamos amizade, trocamos ideias, fazemos fofoquinhas. Que mal há?

- Não é isso.

- Não?

- Coisa de pele.

- Pele?

- É. Acariciando... Pecando...

- Outra mulher?

- Sim, estou falando de outra coisa.

- Como assim?

- Vai me falar que não sabe que, cada dia mais, cresce o relacionamento amoroso entre as mulheres?

- Não, não sei.

- Nunca leu que cientistas estão desenvolvendo experiências com métodos de inseminação que dispensam os espermatozoides. Isso quer dizer que homem, daqui uns tempos, não servirá nem para reprodução. Seus genes molengas só atrasam nossa vida.

- Acho absurdo.

 - Do jeito que as coisas vão, em pouco tempo, mulheres transar com homens será considerado bestialismo. Isto é, sexo com animais inferiores. Há quem diga que, em breve, a única atividade masculina no mundo será a de drag queen.

- Besteira! Onde você leu isso?

- Numa revista muito séria. Pode ser até gozação, mas tem cientista aí afirmando que a espécie humana caminha para a bissexualidade, como resultado da evolução natural das espécies. É biológico. É natural.

- Quem falou essa bobagem?

- Doutor Umberto Veronesi, ex-ministro de Saúde da Itália.

- Caramba!

– Ele defende que o homem está perdendo suas características fundamentais, e tende a se transformar numa figura sexualmente ambígua. Por outro lado, a mulher se torna cada vez mais masculina. Desta forma, a sociedade evolui para um modelo único.

- Impossível, Nathalie. Impossível.

- O médico vislumbra um futuro no qual o sexo será apenas um gesto para demonstrar afeto, desvinculado de fins reprodutivos. A maioria da população seria praticamente assexuada. Apenas uma parcela se dedicaria ao cruzamento por meios artificiais de reprodução, como clonagem e fecundação in vitro. O ato sexual seria praticado tanto com parceiros do mesmo gênero, como do gênero oposto.

- Louco e visionário!

- Sei não. Ele reforça sua tese, dizendo que, desde o pós-guerra, a vitalidade dos espermatozoides já diminuiu 50%. Isso, porque a hipófise, órgão responsável pela produção dos hormônios, atualmente secreta menos hormônios por causa das mudanças das condições de vida no planeta.

- Acho que ele quer mais é aparecer. Criar polêmica.

- Será?

- De tudo que sei de biologia, do ponto de vista antropológico, a orientação sexual é definida a nível biológico pela espécie, o que não pode ser alterado.

- Uai, não vê na televisão cantores hermafroditas, fazendo o maior sucesso?

- Sei de alguns casos. Fico meio atrapalhada.

- Tem até aqueles mais ousados que se apresentam no palco com um belo corpo feminino e o rosto barbado.

- Poxa!

- Pode ser um protótipo para ilustrar as teorias de Veronesi, não?

- Kkkkkk.... D+!!!... – expressa Morana sem conter a gargalhada.

- Por que ri?

- Como previra Niet, o homem está mudando radicalmente. O pior é que o grande filósofo já não pode traduzir para nos todo esse burburinho.

Pausa. Nathalie:

- Para pôr mais lenha na fogueira insinua o cientista que, numa sociedade como a que vivemos hoje, situações parecidas são mais comuns do que a vã sabedoria imagina. Em qualquer grande cidade, pelo menos uma, em cada dez mulheres, já esteve na cama com outra.

- Ora, menina!

- Assunto para muita discussão, querida.

- Não podemos esquecer jamais que a reprodução não é apenas o encontro de gametas, implica uma relação afetiva entre duas pessoas de gêneros diferentes.

Nathalie, coloca mais vinho no copo das duas e, depois de saborear a bebida, diz:

- Quer saber de uma coisa, Morana?

- Quero.

- Gosto de você. Sabe disso, não sabe?

- Também gosto de você.

- Quer saber de outra coisa?

- Pode falar.

- Mudei muito depois que te conheci. Comecei a sonhar, a sonhar, sabe?

- Mesmo?

- E basta sonhar que a vida também ganha outro sentido, não é?

- Sim.

Pausa. Nathalie:

- Não sabia que era tão bom curtir o calor do seu colo, quentinho e fofo.

- Dengosa!

- Sou mesmo. Você tem mãos habilidosas e um jeitinho especial de mostrar afetividade.

- Não sabia.

- Suas mãos me pegam por dentro.

- Puxa!

Nathalie alça a cabeça, junta os cabelos atrás da orelha e se afasta um pouco na poltrona.

- Elas são mágicas e carinhosas ao mesmo tempo.

- Tudo isso, mocinha?

- Tudo. E magnéticas também.

Os pensamentos começam a incendiar Nathalie por dentro.  Numa expressão audaciosa faiscando no olhar, diz em tom sedutor:

- Tem um sininho dentro de mim pedindo mais.

- Mais! Mais o quê? Que eu dê sopinha na sua boca?

Risos. Nathalie:

- Seria tão bom!

- Ou quer que eu adote você?

- Como filha?

- Talvez.

- Como filha, não.

De repente, o rosto da jovem flameja.

- Morana, qual o melhor lugar para fazer amor?

- Hein?

- Isso mesmo, qual o melhor lugar para fazer amor?

- Querida, qualquer lugar serve quando a gente quer.

- E qual o melhor momento fazer amor?

- Dizem os sexólogos que há 237 razões para o sexo, de acordo com uma pesquisa realizada por especialistas da Universidade do Texas.

- Nossa! Então me fala das que você conhece.

- São tantas..., tantas.

- Por exemplo?

- Por amor e afeição, prazer ou pura diversão. Para aliviar a tensão sexual e até mesmo para queimar calorias.

- Caramba!

- Fazer amor é gostoso, Nathalie. Melhora a autoestima, reduz o estresse. Para os casados nada melhor para proclamar seus desejos, agradar o parceiro e para ter filhos. Quer mais?

- Legal. Só mais uma coisinha?

- Uma só?

- Eu quero... Eu quero...

- Vamos. Está com uma cara, que foi?

Nathalie fecha um pouco o sorriso:

- Preste atenção.

- Diga.

- Sabe... Sabe o que é?

- Não faço a mínima ideia.

- Não mesmo?

- Assim, Nathalie você está me deixando mais curiosa.

- É uma confissão, Morana.

- Sem dedos cruzados?

- Sem.

- O quê? Fala.

- Estou gamada, querida.

- Nossa! Por quem?

- O amor é uma coisa que a gente não entende, ‘né?

- Gamada por quem?

- Por uma pessoa bem especial que vai me fazer muito feliz.

- Nossa! Posso saber?

- Não sei se pode.

- Minha vó falava que, quando a gente quer muito alguma coisa tem que ter cuidado, porque ela pode ser nossa um dia – observa Morana.

 - Ah, é! Bom. Bem, se é assim...

- Apaixonada por quem, Nathalie?

- Antes quero saber se você se apaixonaria com uma pessoa bem mais jovem.

- Sei não, nunca pensei nisso. Mas, nessa fase da vida, lidar com os anseios e as instabilidades de alguém mais jovem não deve ser fácil. Afinal, presume-se que a juventude ainda não tem domínio total do uso da razão para organizar os sentimentos, principalmente, nesses casos.

- E no caso de uma pessoa mais nova se apaixonar por uma mais velha?

- Para uma pessoa mais nova, aprender a se relacionar com alguém mais maduro e experiente pode ser um desafio também. Mas, isso não significa que esse tipo de relacionamento seja impossível. O amor tem lá seus mistérios, ‘né? Acho que um pouco mais de tolerância, de conversa e de ajustes entre as partes, e cada parte disposta a oferecer espaço para as particularidades do outro, pode dar certo, sim. Tudo com boa dose de intimidade, carinho, sexo e convivência, certo?

- Certo.

- Está apaixonada por uma pessoa mais velha, Nathalie?

- Ã-Hã.

- Posso saber ou continua sendo segredo?

- Pode. Prometi a mim mesma não esconder mais.

- Então fala.

- No fundo da alma de cada um há tesouros escondidos que cabem apenas ao amor descobrir, não é isso que dizem?

Adimirada Morana abre mais o sorisso e cantarola em tom da brincadeira, imitando Amália Rodrigues:

- De quem eu gosto, nem às paredes confesso...

- Confesso, sim.

- Anda, então diz logo.

- Eu faço o tipo levada, sabe disso, ‘né?

- Eu sei, e gosto. Desabafa, vai.

- Querida, essa conversa chega a nós duas.

- Nós duas?

- Nem sei explicar.

- Nem precisa. Sentimento não tem explicação.

- Morana, eu sinto uma coisa tão forte, quando estamos juntas. 

Sublime, linda...

- Ora...

A garota baixa um pouco a voz:

- Estou fascinada por você.

- Por mim?

- Pronto, falei!

- Repete.

- Sim, por você.

A pintora exala um ar entre os dentes, sem achar o que dizer. Nathalie arqueia a sobrancelha, repetindo:

- Estou apaixonada por você.

- Por mim?

- É.

- ...

- Ora, bolas, se sou incondicionalmente apaixonada pela vida, porque não haveria de me apaixonar por alguém como você?

Morana emite de novo um chio entre os dentes, sem palavras. Hesita um pouco, mas pergunta sem desviar os olhos da amiga:

- Impressão minha, ou acha que sou bi?

- Não acho nada. Pintou uma paixão e estou sendo sincera. As portas do meu coração seguem abertas.

A pintora contrai o rosto.

- Então você me faz a corte, me paquera?

- É a pessoa que sonhei ter a vida toda.

- Você está bem, criatura?

- Estou gamada, só isso. Você realmente me toca o corpo, a alma..., me acolhe.

- Mas...

- Não se maravilhe disso Morana?

- Arre!

- Se precisar faço até despacho em encruzilhada para ter seu amor. Paixão é uma coisa incontrolável mesmo!

- Háháhá!

- Calma. Fique calma – pede a jovem.

- Estou calma. Mesmo assim, nem sei o que dizer.

- Acha impossível?

Morana cobre o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro, dizendo:

- Ora, Nathalie! Tarefa difícil, para não dizer impossível.

- Tem medo?

- Não é isso.

- Recrimina?

- Estou confusa, mas se for um relacionamento consensual...

- Já ficou com uma mulher?

- Por que está me perguntando isso?

- Fale.

- Não.

- Nunca teve vontade?

- Preciso dizer?

- Que rubor é esse, Morana? Tão difícil assim?

- Bastante, me encabula.

- Já ou não?

- Nem sei o que dizer.

- Vejo que não está segura de seus sentimentos.

- Pode ser.

- Então?

- O quê?

- Assustada comigo, ‘né?

- Um pouco, Nathalie. Sou compreensível e bem aberta a desafios, mas acho que acendeu a luz vermelha.

- Não acha que está rolando um clima entre a gente?

- Somos amigas.

- Só amigas?

- Por que não?

- Já viu falar em amizade entre um homem e uma mulher bonita? Nunca. A mesma coisa.

- Não sei. Não sei.

- É, sim.

- Bem... Amizade, Nathalie, é a única coisa que resta da época em que os homens eram deuses.

- O que você quer dizer?

- Que amizade é o que sobrou de muito bom na humanidade.

- Só isso que você tem para me falar?

- Ã-Hã.

- E o amor?

- Bom, quer dizer: o amor tem a visão um pouco mais delicada.

- Disso mesmo que estou falando, Morana. Falo de carinho, ternura.

A pintora levanta os olhos, em silêncio. Nathalie:
- O que foi, Morana?

- Estou pensando, fazendo reflexões.

- Sobre?

- Imaginando como a sexualidade possui tantos mistérios. Ai, são tantos!

- Freud começou a desvendar a sexualidade humana, Lacan reiterou e ampliou as descobertas – afirma a jovem.

- Sei disso.

- O Pai da Psicanálise deixou muito claro que a nossa sexualidade é múltipla e desordenada. Por isso mesmo que a pulsão sexual é orientada pela escolha inconsciente do objeto de desejo. E que nenhuma escolha é mais natural do que outra.

- Talvez. Talvez.

- O que mais importa, Morana, é que a vida nos oferece muitas oportunidades, basta prestar atenção. Veja bem, se tiver interesse em me conhecer melhor, ou eu te conhecer melhor, ora, por que não?

- Santo Deus, acho que ainda preciso mudar muito os meus valores em relação à minha cabeça!

- E por que me olha assim?

- Tenho o hábito de observar o admirável nos outros. Por isso estou olhando para você, tentando entender melhor as coisas.

- O que está vendo, Morana?

- Uma criatura que me encanta com esses olhos claros de uma boneca.

- É mesmo?

- E que se diz apaixonada por mim.
- Extremamente.
- E quer me tocar.
- Sim. Estou morrendo de vontade de você.

- Meu Deus!

- Constrangida?
- Não é isso, Nathalie.

- O que é então?

- Não estou preparada para certas coisas... Nem sei se dou conta de segurar uma onda dessas com você.

- Querida, olhe o lado bom das coisas.

- Ah!

- Para qualquer mulher que vive trancada dentro dela mesma, pode ser um novo mergulho no fascínio da imaginação de sua sexualidade.

- Arre!

- Precisa de mais tempo?

- Onde pretende chegar, Nathalie?

- Eu não aguento mais reprimir meus desejos. Juro.

- Meu Deus, mas é bom pegar mais leve!

- Por que, Morana? Tem medo da intimidade?

- Para você parece tudo mais fácil.

- Queria ouvir, pelo menos, uma resposta igual.

- Ai, Nathalie!...

- Amar nunca foi uma vergonha. Se daqui para frente queremos extrair alguma novidade de fato, ela virá da nossa maneira de encarar a vida, desfrutá-la com mais proveito. O maior crime é não amar.

- Bom. Não sei o que dizer, me sinto meio bloqueada.
A garota abre mais o jogo:
- É minha inclinação natural.

- Criatura!

- Gosto de mulheres, sim. Se nasci com a química alterada, desigual, tenho que trabalhar isso, ser feliz. Sexo é uma liberação, querida.

- Sempre foi desse jeito?

- Acho que sim.

- Já se apaixonou por alguma mulher?

- Curtição, apenas. Com você a coisa pinta de forma diferente, me encantou desde o primeiro encontro e estou me abrindo completamente.

- Não está vendo novelas demais?

- Imagina.
- Meu Deus!
- Gamei, pô! Você foi a melhor coisa que já me aconteceu na vida.

- Exagerada!

- Quando sinto uma coisa, Morana, preciso dizer. Não dá para segurar mais.

A pintora dissimula:
- Desejar alguém é muito bom. Sei como é.
- Sabe?
- Pode ser uma excitação passageira.
- Não é não. Estou sendo sincera.

- Não acha que sou velha demais para esses devaneios?

- Está com medo?

- É natural.
- Natural?
- Sim. Temos tantos medos, não é mesmo?

- Morana, a felicidade não tem regime nem época, ela acontece. E depois, nada é absolutamente certo, nada é absolutamente errado. Esse medo pode ser um mecanismo que você criou para proteção de sua angustia, de sua ansiedade.

- Pode ser. Acho que sou mesmo meio antiquada, desatualizada.

Risos. Nathalie rebate:

- Querida, leio nos seus olhos que é uma mulher com muito amor para dar.

- Me enxerga tão fundo assim?

- Radiografo tudo.
- Não quer acabar com meus segredos, ou quer?

- De jeito nenhum. Mas, o que me diz, Morana?

- Ai, aí...

- Relaxe. Deixe de lado essa maneira civilizada de encarar a vida e venha pecar comigo.

- Eu, relaxar! Como sabe que estou nervosa?

- Pelo jeito de olhar, por exemplo.

- Está me saindo uma sedutora e tanto!

- Quero ser seu amor, só isso. Isso não me sai da cabeça, algum problema?

- Não, nenhum.

- Jura?

- Juro.

Nathalie coloca um dedo nos lábios da pintora, quase sem ar:

- Ajude-me a atravessar esse sonho, me dê uma chance.

- Ai, Nathalie!

- Sexo é liberação, querida. Vem cá, me dá um beijo, dá.

- Ai, Nathalie, nunca fiz isso.

- Eu sei. Eu sei. Estou aqui para te ajudar a organizar as ideias dentro de você.

- Um dia...
- Um dia é vago demais.

- Desculpe-me.

- Então devo tirar meu time de campo?

- Não é assim, Nathalie.

- Preciso de tempo. Você está indo muito depressa, vamos com calma.

- Se é assim que você quer, assim que vai ser.

- Confesso que me pegou desprevinida. Ai, você me confunde, me assusta.

- Calma.

- Precisamos de nos conhecer melhor.

Numa mistura de amargura e súplica, a jovem:

- Podemos ser felizes, não acha?

- Ã-Hã.

- Eu sinto que a gente se ama. E, contra o amor, Morana, não se pode quase nada, não é mesmo?

- Vou responder como artista de novela mexicana: por favor, me dá um tempo, ainda tenho muita coisa para pensar.

Risos. Nathalie:

- Quer escutar um velho conselho de Mark Twain?

- Manda.

- Daqui a alguns anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez. Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra. O tempo é o senhor absoluto de todas as coisas, viu?

- Viu.

- Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo para ser feliz é curto, cada instante que vai embora não...

- Eu sei.

- Certas coisas a gente deve revelar, não é mesmo? Liberte-se do sistema. O passado está na sua cabeça, mas o futuro está em suas mãos. Portanto, ouça muita música. Sinta muita paz. Pratique muito amor.

- Caramba!

- O que importa é saber se você gosta de mim, Morana. Vem, estou te oferecendo um destino.

- Arre!

- Sinto falta de você, Morana. Desde que começou a rolar um clima romântico entre a gente, eu fico cada dia mais apaixonada. Vem cá, me beija. 

- Ah, para com isso. Não força.

- Você ouviu bem o que eu disse?

- ...

- Vem!

- Dar um beijo assim de repente?

- Medo ou preconceito por causa da idade?

- Ah!

- Não há motivos de se envergonhar por querer descobrir novas formas de sentir prazer. É humano querer ser diferente – assegura a garota.

A respiração da pintora se anarquiza mais ainda:

- Ai, Nathalie! Nem sei o que dizer.

- Não mesmo?

Em silêncio, Morana parecia absorta, movendo os lábios como se falasse baixinho. A garota curva-se e, levemente, beija-a nos lábios.

- Ai, Nathalie!

- Sexo, querida, nunca foi só papai e mamãe. Para seu governo, em 3.200 antes de Cristo uma imagem da Mesopotâmia mostra a mulher por cima de outra, assim como aparece em obras da Grécia, Peru, China e Índia. Se já era normal naquela época, por que não aproveitar hoje, hein?

- É.

- Morana, se está disposta a pagar o preço do verdadeiro amor, para de história. Chega, vamos dançar.

- Ai...

- Não precisa dizer nada, apenas dê um sorriso.

- Um sorriso?

- O sorriso é a única curva que endireita as coisas.

- Hummm!

- Já que a vida quis assim, Morana, venha apenas sentir o que está acontecendo de fato entre nós, uma morrendo de vontade da outra. E que a noite seja ótima. Que seja louca e sorridente.

- Ai, ai, ai...

- Desculpa-me, amo você.

- Já disse isso para quantas mulheres?

- Ei, está pensando o quê, Morana?

- Nada. De repente...

- De repente estaria fazendo cena para te envolver, porque no fundo, no fundo quero mesmo é também pegar todas as mulheres do seu grupo de amigas?

- Não fui tão longe assim.

- Quem comete isso não está sendo legal. É safadeza. Isso é falta de respeito com os gays. Entendo que as relações homossexuais são, acima de tudo, uma relação de amor e de consideração.

- Ai, Nathalie!

- Vem. Quero dormir com você, quero te dar bom dia todo dia. Quero te esperar toda noite. Vem, me leva para o seu quarto...


 




 * FBN© 2013 * EM UM SÓ TOM – Capítulo VII - Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2006/12/vii.html


 


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