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Nathalie olha para a
pintora com ar de simpatia. Dá um tempo, espalma a mão sobre o peito, e
pergunta:
- Pelo visto, então é mais
uma solteira no pedaço?
- Acho que sim.
- Por opção, é claro.
- Na verdade, menina, a
idade torna as mulheres mais exigentes, não é mesmo?
- Huuuummmm!
- Queremos mais. Muito
mais. Muito mais do que um homem. Queremos um companheiro que nos reconheça
como parceira e nos valorize, para mantermos a chama acesa.
- Sim, sim.
- Afinal, estamos
trabalhando que nem eles, correndo atrás, pagando as contas, carregando
embrulhos. Assim por diante.
- Pior que é.
- Quer saber, Nathalie, não
me incomoda a ideia de estar sozinha. Para mim, sexo e afeto sempre estiveram
misturados, portanto é melhor não se afobar nessas coisas. Penso todo dia sobre
isso.
- Concordo em gênero,
número e grau.
- Estou dando um tempo. Sem
compromisso afetivo, tenho a chance de ouvir meu universo interior, de penetrar
nos meus sentimentos mais profundos. Enfim, refletir sobre minhas angústias e,
quando achar por bem, partir para outro lance com a autoestima lá em cima.
- Bacana.
- Mas isso, Nathalie, não
quer dizer que estou totalmente fora do eixo. Muito menos querendo pôr um ponto
final na minha vida amorosa, apenas uma vírgula, viu?
- Posso imaginar.
- Na verdade, são muitos
pontos de interrogação na cabeça.
- Muitos?
- Sim, muitos.
- Então me conta essa
história, Morana.
- Bobagens!
- Bobagens?
- Você não vai entender.
- Por que não?
- É de outro tempo, muito
nova.
- Não acredito que me acha
uma patricinha fútil, alheia a tudo, geração Coca-Cola!
- Não disse isso.
- Morana, por favor! Pode
confiar, já vivi o bastante.
- Sério?
- Sério. É o dito-cujo, o
casado, que anda mexendo com sua cabeça?
- Não, não. Ele joga com
transparência. Não esconde que vive bem em casa e não quer abandonar a família.
Se ele está mentindo não passa de uma mentirinha suave, murmurada entre beijos
e abraços. Gosto disso.
- Então não pensa em ter
uma relação mais estável com ele?
- Deus me livre! Por em
quanto nem com ele, nem com ninguém. Isola.
- Fala sério?
- Essa coisa de homem debaixo
do mesmo teto ainda me repugna, marcou muito. Melhor é ele ter suas cuecas para
a esposa cuidar. Desse jeito fico bem mais confortável, não é mesmo?
- Ele raciocina assim
também?
- Ora, Nathalie, para quem
sabe ler um pingo é letra. Não tenho a menor dúvida.
- Você está certa, uma
relação assim nunca pode ser muito intensa.
- Tem suas limitações,
claro.
Nathalie com um risinho
nervoso, observa:
- Está vendo, coisa dos
homens casados? Nunca falam de planos futuros, querem só o bem bom. E mentem
para caramba!
- Ã-Hã!
- Tanto que primeiro de abril deveria ser o dia da verdade,
porque a mentira é um hábito diário das pessoas, principalmente, dos homens
casados.
Risos. Morana:
- Paciência. Não me afeta
em nada.
- Não mesmo?
- Quer saber? Não ligo. Essa
relação sem compromisso até contribui para o meu equilíbrio emocional. É uma
coisa só de corpo, curtindo tesão apenas. Assim, continuo com minha porta
fechada, e a consciência de que estou batendo em outra porta mais fechada ainda.
Tudo numa boa.
- Bem, se pensa desse
jeito, quem sou eu para contestar.
- Assim é melhor, tipo light.
Namorar é gostoso e faz bem para a saúde do corpo e da alma.
- Ora, salve!
- Tão bom como pizza de mozarela!!!
– expressa a pintora em tom de brincadeira.
Com os braços cruzados, o cenho franzido e os olhos faiscando, Nathalie:
- Vem cá, você faz ou já
fez análise, Morana?
- Eu! Não, não faço. Na
fase de minha separação minha irmã me levou a um terapeuta. Aceitei porque
julgava que todo o meu desejo tinha morrido.
- E aí?
- Na terceira sessão,
desisti. Achei uma baboseira você pagar alguém para ser ouvida. Aquela coisa de
ficar falando, feito boba, e uma pessoa ouvindo só pelo dinheiro que recebe.
Não está com nada.
- Não?
- Nada melhor para resolver
conflitos interiores do que abrir um bom diálogo com você mesma, se conhecer
bem. Sobretudo, dar tempo ao tempo para curar as feridas. Foi o que eu fiz. De
acordo com Nietzsche, nunca é alto o
preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo, porque o maior
desafio da vida é descobrir quem você é.
- Filósofa!
- Gosto, sim. A filosofia
ajuda. Dá caminhos.
Pausa. Nathalie:
- Como despertou seus
desejos de novo?
- Bem essa é uma história
longa. Quer mesmo ouvir?
- Ã-Hã.
- Depois da separação, tive
dificuldades para resgatar a vontade de me divertir, principalmente, de fazer
sexo. Tinha náusea. Preocupei com isso, evidente. Daí comecei a devorar livros
e mais livros sobre o assunto, quase virei psicanalista, acredita?
Risos. Morana continua:
- Conversei muito com
amigas separadas. Foi ótimo. Depois de
tudo, descobri que o desejo sempre esteve em mim, mas quieto, calado. Ele só ressurgiu
quando encontrei coisas minhas que estavam apagadas, como a vaidade, a vontade
de ter uma posição social e de despertar o desejo de outro homem também.
- Legal.
- Háháhá! Imagino que se tivesse
aceitado um divã para dar jeito nas minhas feridas, estaria até hoje deitada lá,
remoendo meus conflitos internos.
- Talvez.
- Para dizer a verdade, eu
nunca vi alta de quem faz análise.
- Nem eu – concorda Nathalie.
- Faz parte do jogo. Boba
da mulher que vira dependente de um analista por qualquer coisa. A não ser em
casos excepcionais, lógico.
- Sim.
- Dizem que, muitas vezes, da
paciente para o profissional rola até amor platônico. Conheço amigas gamadas
pelo seu terapeuta, tanto que não vivem sem uma sessão semanal. Pagam o olho da
cara para deitar num divã e ser ouvida por ele.
Risos. Nathalie, curiosa:
- Então conheceu algum caso
com caso nessa história?
- Sim, alguns. Mas, são
profissionais atentos que não dão bobeira. Conseguem dar corda e controlar as
rédeas numa boa, porque sabem eles que se ocorrer envolvimento amoroso a coisa
não fica bem. Além de ferir a ética profissional, perdem a paciente.
- Háháhá! Até imagino uma
situação dessas... Depois, a infeliz horroriza a vida do pobre analista,
achando que o mesmo episódio pode acontecer com outras pacientes.
- Óbvio.
- A mente humana é uma caixinha de
surpresas. Tudo pode ocorrer, ‘né?
Pausa. Morana:
- De fato. O analista acaba
fazendo o papel de um simpático professor que ensina e aponta caminhos para
resolver problemas emocionais. Isso é capaz de seduzir qualquer mulher mais
carente.
- Principalmente.
- O importante, Nathalie, é
você gostar de você, acreditar em sua capacidade de realização. Nunca se
permitir ser levada pelo desânimo, porque não vale a pena. Em resumo: o negócio
é preservar a autoestima como ferramenta importante para fortalecer nosso
sistema imunológico emocional. Aí, você tem a chance de passar longe do divã de
um psicanalista.
- Meu pai fala que a vida
só é legal quando aprendemos a lidar com a gente mesmo. Só assim superamos
limites.
- É por aí, menina. Outra
coisa que me ajudou bastante foi a filosofia budista. Fiz um retiro de sete
dias num templo em Curitiba. Muito bom. Os conselhos de Buda são práticos,
dinâmicos e fluidos. Recomendo.
- Interessante. Pensou em se
tornar monja?
Risos. Morana:
-
Jamais deixaria a vida que tenho em Belo Horizonte, mesmo apaixonada pela rica
e complexa filosofia da meditação.
- Não tenho dúvidas quanto
aos benefícios, mas eu não consigo meditar, acredita? Tentei várias vezes e me
perco na falta de concentração.
- Não é difícil, só ter
disciplina mental. Não há nada que o nosso esforço não realize. Meditar é
treinamento, igual a dirigir.
- É?
- Hoje, mantenho prática diária de meditação. Tornou-se hábito. Isso
me ajuda a enfrentar os problemas do cotidiano numa boa. Ajuda a desmontar
certas perturbações interiores, o que nos facilita a encontrar compreensão
maior das coisas. O que traz um bem-estar indescritível.
- Ai, quero aprender.
- É bom. Posso dizer que a meditação me ajudou a pintar com mais
atenção, treinando minha concentração e experiências. Favorece meios para você afastar
aqueles pensamentos que atormentam a mente.
Pausa. Nathalie:
- Morana, acho que ainda a melhor terapia é ser amada por alguém
que você ama. Isso levanta qualquer astral e dá estímulo para sonhar e viver
bem.
- Claro. Não existe coisa
melhor do encontrar um homem que preencha os nossos sonhos.
A jovem, com um risinho nos
lábios, alfineta:
- Preocupe não, se for o
caso a gente capacita um. A meta da mulher de hoje é devorar machos
constrangidos, inseguros e perplexos diante de tanta liberdade conquistada por
nós, concorda?
- Olha!
- Para nós, como todos eles começam um relacionamento doces
como uvas, nossa obrigação é pisoteá-los
e mantê-los no escuro até que amadureçam. E se tornem uma boa companhia para o
jantar.
Morana
solta uma gargalhada.
- É isso aí, mocinha.
Abaixo o macho empedernido dos anos 50 e o metro sexual vaidoso dos dias de
hoje!
- Viva!
- Mesmo assim, Nathalie, quando passar esse estágio de sozinha,
eu desejo encontrar alguém que me ame com afeição e que seja um homem de bem
com a vida. Todo mundo sabe que solidão nunca foi boa companhia para ninguém.
- Homem?
- Sim. No fundo, no fundo,
como toda mulher, ainda sonho achar um homem charmoso, o puro objeto do desejo.
Um cara que se interessa por cultura, esportes e uma boa conversa em torno de
uma mesa com torradas e chá verde.
- Que mais?
- Que também saiba
cozinhar, que goste de flores e de animais, de vinho e de um moletom
confortável para caminhar comigo.
- Só?
- Que senta no banco do
carona e dorme, confiando na mulher que conquistou para levá-lo a qualquer
lugar do mundo onde possam sonhar e ser felizes.
- Não está querendo demais?
- Querida, esse homem é o
meu sonho de consumo. Será que não existe?
Risos. Nathalie:
- Um cara assim só mesmo no
sonho ou na telinha da televisão... Utopia pura, querida.
- Coisa cada dia mais rara,
não é mesmo?
A jovem revira na poltrona,
dizendo em voz docemente alterada:
- Morana, veja bem: os
homens bons são feios. Os homens bonitos não são bons. Os homens bonitos e bons
são gays. Os homens bonitos, bons e heterossexuais
estão casados...
- Epa!
- Os homens que não são
bonitos, mas são bons, não têm dinheiro – prossegue Nathalie. - Os homens que
não são bonitos, mas que são bons e com grana, pensam que só estamos atrás de
seu dinheiro. Os homens bonitos, que não são bons e heterossexuais, não acham
que somos suficientemente bonitas. Os homens que nos acham bonitas, que são
heterossexuais, bons e têm dinheiro, são covardes. Os homens que são bonitos,
bons, endinheirados e, graças a Deus heterossexuais, são tímidos e nunca dão o
primeiro passo. Os homens que nunca dão o primeiro passo, automaticamente,
perdem o interesse em nós quando tomamos a iniciativa. É isso, copiou, amiga?
- Vixe! Quem disse isso?
- Uma mulher bastante inteligente
e observadora da raça na Internet. Não quis dar crédito ao manifesto, preferiu o
anonimato.
- Oh, Nathalie, pior que
acertou em cheio! Lembrei até de uma
piadinha que ouvi essa semana.
- Qual?
- Viajavam num carro um
homem perfeito, uma mulher perfeita e Papai Noel. Houve um acidente e apenas um
viajante sobreviveu. Sabe qual?
- Nem imagino.
- Há... Há... A mulher
perfeita, claro. Não existe papai Noel, muito menos homem perfeito.
- Boa, Morana. Boa.
- Quem nesse mundo entende
os homens?
- Ninguém, ‘né? Nem Freud se
atreveu a explicar.
- Nathalie, não quer dizer
que me livrei da máfia dos homens, porque minha libido é turbulência pura, uma
montanha russa. Só que não sou mulher que fica criando expectativas.
- Duas. Também sou roxa por
sexo.
Risos. Morana:
- Até porque acabou o tabu da mulher não assumir
que sente vontade de fazer sexo. Do jeito e com quem quiser, não é mesmo? A
questão é que não há homens interessantes disponíveis na praça. Já passei meses
sem ficar com alguém, porque não tenho paciência para aturar homens sem
cabeça.
- Duas. Também estou nessa.
- Acredito na sorte. Um dia
vai aparecer um homem legal na minha vida – ressalva a pintora.
- E será que a sorte
acredita em você, Morana?
- Eis a questão. Melhor
acreditar naquilo que deixa você mais tranquila, não acha? Quem sabe Santo
Antônio me dá uma forcinha.
- Espero que vocês se
entendam.
- Tenho fé, Nathalie, tenho
fé.
- Meio caminho andado, viu?
- Posso dizer que, hoje,
estou vivendo uma verdadeira homeostase.
- Que isso?
- Equilíbrio. A mente está
calma, o coração bate com coerência cardíaca, respiro com tranquilidade. Enfim,
não estou estressada.
- Então o estresse é a
ruptura desse equilíbrio?
- Principalmente.
- Quer saber, Morana, você
não acha que a conversa está começando a ficar séria demais? Vamos falar de
coisas de melhor astral e arejar os pensamentos... Vamos?
- Acho ótimo.
* FBN© 2013 * ENTRE ELAS – Capítulo IV - Categoria: Romance
- Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido
pela Google - Ilust.: Imagens Internet – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2006/12/iv.html
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