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Intimidade e Delicadeza
Um ar de carinho e ternura toca a alma da pintora. Ela abaixa as
pálpebras para entender melhor o momento e avaliar a percepção de sentir nos
lábios de outra mulher uma revelação de amor.
Sensibilizada, Morana passa a alisar com mais afago os cabelos
da garota, a fim de alcançar todos os rumores daquele corpo latejando de desejos
ao seu lado. Sorri, e pede:
- Nathalie, olhe bem dentro dos meus olhos.
Nesse instante, as duas, com os lábios tremulando de ansiedade,
ficam de pé. Uma apreciando a outra.
- Linda, irresistivelmente, linda – expressa Nathalie.
- Você também é linda.
- Merece uma Camélia Branca.
- Por quê?
- Representa a beleza perfeita.
- Ai, menina, você me atrai e confunde ao mesmo tempo. Sinto até
arrepios – confessa a pintora.
- Bons ou ruins?
- Bons.
- Então venha, sonhe esse sonho comigo.
É bonito demais!
- Ai, Nathalie!
- Me dá um beijo.
- No rosto não. Na
boca.
- Maluquinha!
- Só preciso de um minimo de
romantismo para entrar no clima.
- Ma-lu-qui-nha!!!
- Estou mesmo. Agora, me dá um beijo na
boca, dá.
- Só um?
- Dois. Cem. Mil. Quero ficar com você. Sentir você, penetrar
sua alma, enfeitiçar seu corpo.
Risos. Depois de um leve arrepio, Morana com os pelos eriçados, o
coração a toda, íris dilatadas repete ‘ai, ai, ai’ muitas vezes.
- Que foi?
- Vamos com calma. Acho que preciso de um
pouquinho mais de tempo para entrar no seu ritmo.
- Nanã, querida! Não podemos deixar para
depois o que precisamos viver agora. Dessa vida só se leva a vida que se levou,
viu?
- Você, hein!
-
Querida, falo com a voz do coração, juro. Meu amor não para de crescer, ferve
aqui dentro.
-
Caramba!
- Posso fazer uma pergunta?
- Quantas você quiser.
- Posso dormir aqui hoje
e passar a noite com você?
Morana
levanta os olhos, eternecida.
- Ai,
você venceu! De repente,
você colocou a mão por dentro de mim e arrancou o mal que me perturbava pela
raiz.
Num impulso febril, Nathalie segura a pintora pela cintura,
encosta o rosto no rosto dela e seus lábios se unem num beijo profundo,
penetrante e longo, selando um instante sublime entre as duas mulheres, com
intimidade e delicadeza.
- Gostosa! – murmura Nathalie, ofegante.
- Ai!...
- Beija bem, querida.
- Satisfeita?
- Muito.
- Criatura, isso nunca aconteceu comigo – conta Morana com as
faces coradas.
- Sempre tem a primeira vez. Gostou?
- Acho que sim.
- Acha?
- Sim, gostei.
- Sabor de quero mais?
Risos. Nathalie com entusiasmo na voz:
- Sabe de uma coisa, Morana, não é capaz de imaginar tudo que
pode uma boca feminina. É surpreendente!
- Imagino.
Num ímpeto de satisfação, Nathalie se ajoelha e abraça a pintora
à altura da cintura:
- Linda!
- Huuuummmm!
- Beijo dado assim, com paixão, pode ser o início de um grande
amor, que tal?
- É?
- Está vendo que nós formamos um belo par?
- Ã-Hã.
- Agora, querida, é que não deixo você escapar mesmo. Seremos
uma a sapatilha da outra – brinca a jovem.
- Sapatilha?
- Sim. A namorada, exageradamente feminina, de outra mulher exageradamente
feminina.
- Mocinha levada!
- Lembrei-me do poeta Manoel de Barros.
- Por quê?
- Perguntaram a ele se as dálias eram lésbicas.
- O que ele respondeu?
- Não posso garantir nem
desmentir, disse ele. Uma Verbena contou-me
que, quando as Dálias se encontram, elas se amam. Todas as flores se amam.
Todas as flores se amam de flor em flor. Sonho lindo de viver.
Risos.
- Duas flores que se atraem! – exclama a pintora com um aceno
leve de cabeça. - Interessante, não?
Nesse momento, sem desviar os olhos uma da outra, calam-se
pensativas. Em seguida, Nathalie sorri e abraça com mais entusiasmo a amiga,
acariciando seus cabelos.
- Você é tudo que eu quero.
- Então, Nathalie, sou uma Dália?
- Dália sedenta de amores. Você é
fantástica, minha flor.
Morana abre um sorriso radioso de confirmação do sintoma da
vontade de se entregar aos braços da outra.
- Estou super feliz com essa história, viu?
– confessa.
- Maravilha.
Sob o toque malicioso da jovem, Morana experimentava o calor de
novas sensações, percorrendo-lhe o corpo. Cerra os olhos, respira profundamente
e se oferece cheia de vontade aos braços de Nathalie:
- Ai, Menina, agora você vai me
ter. Vai me ter. Serei sua, levada por um esse furacão que despertou dentro de
mim. Vamos fazer uma coisa que a muito tempo a gente não faz. Fica comigo,
vem...
Com os rostos colados, corriam as mãos nas costas uma da outra
de modo atrevido e sensual. Em seguida, a pintora toma Nathalie pelos braços e,
aos beijos, caminham juntas para seu quarto, deixando para trás peça por peça
de suas roupas, espalhadas pela casa.
E assim, nuas e envolvidas, entram no banheiro, apagam a luz e
se amam pela primeira vez debaixo de uma ducha de água quente. Depois,
enroladas em toalhas, se jogam na cama larga de Morana, alimentadas por uma
alegria nova de viver.
- Oh, Nathalie! – expressa Morana, como olhos úmidos.
- Você está bem? Sente-se bem?
- Muito bem. Muito, muito
bem.
- É assim mesmo, querida, o calor do corpo fala mais alto,
queima. Nessa hora é que a gente vê que a vida não é medida pelo número de
respirações que damos, mas sim, pelos momentos que nos fazem perder o fôlego de
tanto amor, de tanta surpresa e êxtases de felicidade - garante a jovem.
- Ã-Hã.
- É nessa hora, querida, que experimentamos os vários graus de
satisfação, sentindo que o amor sai pelos poros numa urgência louca para fazer
a gente perder o juízo.
- Um sonho!?...
- Sonhar é acordar para
dentro, dizia Mário Quintana.
- Pois então...
- Pois então vou te
fazer sonhar muitas e muitas vezes, viu?
Nesse instante, Morana, num misto de esplendor e timidez, joga a
toalha para o chão, deita na cama e se abre ardente de desejos. Nathalie senta-se
na beirada do colchão e começa a passear as mãos pelo longo e esbelto corpo da
amiga, que se agitava com um risinho quente e curto, como de cócegas.
Em seguida, ela passa a língua no seu rosto macio, beija-lhe a
ponta do nariz e a boca, enquanto uma das mãos, enfiada por entre suas coxas,
roçava-lhe, delicadamente, os polpudos beicinhos vazados entre os pelos louros
e sedosos de uma concha estreita.
- Ai, que gostoso! – contorce a pintora.
- Tudo de bom, ‘né?
- Tudo.
- Pois fique sabendo que é mais
satisfeito com a vida quem está feliz. É nessa hora que o corpo, querida, produz
uma quantidade maior de hormônios do bem-estar para, de fato, nos enlouquecer.
- Ã-Hã.
Nesse momento, as duas se fundem novamente, consumidas por um
desejo incontrolável. Uma dentro da outra, começam a rolar sobre os lençóis
numa fogosa coreografia, marcada pelas formas mais belas que a natureza já
produziu. E assim..., assim..., assim..., soltando gritinhos um após o outro,
juntas elas chegam ao êxtase, embriagadas pelo gozo.
Depois de um longo silêncio, louca de paixão, Nathalie acaricia
os cabelos da pintora, dizendo a meia voz:
- Quero dormir abraçadinha com você, querida. Posso?
- Pode.
- Mas, antes diga que me ama, preciso disso.
- Ó, querida...
- Agora podemos dormir abraçadinhas.
Pausa. Nathalie:
- Antes quero contar uma historinha que lembrei, posso?
- Conta.
- Quando levaram à rainha Victória a lei que condenava o homossexualismo,
a gordinha ficou fula de raiva. Não deu outra: com uma penada riscou a última
cláusula, justificando que mulheres não fazem essas coisas. Entendeu?
- É o que estou pensando?
- Não poderia ser diferente.
- U-lá-lá! Por isso, meu amor, não tenho medo de
sofrer, pois todos os caminhos me levam a você – cantarola Nathalie um
trecho da canção de Vinicius de Moraes.
- Emoções positivas realmente deixam as pessoas inebriadas pela
química natural da felicidade. Nada, nada melhor. Nada. Merece champanhe
francês para comemorar.
Nathalie ri para a amante com ar de muito contente:
- Querida, comemorar
com champanhe por quê? Comemore aqui na volúpia de meus braços, soltos no infinito que cada uma de nós traz dentro
de si, e deixe sua imaginação voar, voar, voar. A profundidade de nosso
universo depende do quanto cavamos, pode crer.
Morana também solfeja Vinicius:
- Que nada nesse mundo
levará você de mim...
- Hummmmmm!
- Merecemos flores do campo?
- Por quê?
- Representa a felicidade – garante a pintora toda feliz.
Risos serenos. As duas resistiram ao sono enquanto puderam, até
que adormeceram
com as pernas e braços emaranhados uma na outra, e os corações batendo na mesma
sintonia.
Lá de fora uma fragrância silvestre invadia o quarto, anunciando
a chuva fina que começava a cair, calmamente. Vinha do Parque. Comemorava a
primavera de dois corações dentro do coração da cidade, que amanhecia em tons mais
rosa, fazendo brilhar as gotas de água que escoriam do vidro da janelas daquele
apartamento, de frente para um Parque Ecológico Florestal.
- Fim –
* FBN© 2013 * VERTIGEM SEM FIM – Capítulo VIII - Categoria: Romance - Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido
pela Google - Ilust.: Imagens Internet
– Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/8viii-intimidade-e-delicadeza.html?zx=2238b9b50c2d7e6b
- Fim –
