quinta-feira, setembro 12, 2013

* 08/VIII – VERTIGEM SEM FIM

*
 Intimidade e Delicadeza
 
                                                              Imagem Internet
 






Um ar de carinho e ternura toca a alma da pintora. Ela abaixa as pálpebras para entender melhor o momento e avaliar a percepção de sentir nos lábios de outra mulher uma revelação de amor.

Sensibilizada, Morana passa a alisar com mais afago os cabelos da garota, a fim de alcançar todos os rumores daquele corpo latejando de desejos ao seu lado. Sorri, e pede:

- Nathalie, olhe bem dentro dos meus olhos.

Nesse instante, as duas, com os lábios tremulando de ansiedade, ficam de pé. Uma apreciando a outra.

- Linda, irresistivelmente, linda – expressa Nathalie.

- Você também é linda.

- Merece uma Camélia Branca.

- Por quê?

- Representa a beleza perfeita.

- Ai, menina, você me atrai e confunde ao mesmo tempo. Sinto até arrepios – confessa a pintora.

- Bons ou ruins?

- Bons.

- Então venha, sonhe esse sonho comigo. É bonito demais!

- Ai, Nathalie!

- Me dá um beijo.

- No rosto não. Na boca.

- Maluquinha!

- Só preciso de um minimo de romantismo para entrar no clima.

- Ma-lu-qui-nha!!!

- Estou mesmo. Agora, me dá um beijo na boca, dá.

- Só um?

- Dois. Cem. Mil. Quero ficar com você. Sentir você, penetrar sua alma, enfeitiçar seu corpo.

Risos. Depois de um leve arrepio, Morana com os pelos eriçados, o coração a toda, íris dilatadas repete ‘ai, ai, ai’ muitas vezes.

- Que foi?

- Vamos com calma. Acho que preciso de um pouquinho mais de tempo para entrar no seu ritmo.

- Nanã, querida! Não podemos deixar para depois o que precisamos viver agora. Dessa vida só se leva a vida que se levou, viu?

- Você, hein!

- Querida, falo com a voz do coração, juro. Meu amor não para de crescer, ferve aqui dentro.

- Caramba!

- Posso fazer uma pergunta?

- Quantas você quiser.

 - Posso dormir aqui hoje e passar a noite com você?

Morana levanta os olhos, eternecida.

- Ai, você venceu! De repente, você colocou a mão por dentro de mim e arrancou o mal que me perturbava pela raiz.

Num impulso febril, Nathalie segura a pintora pela cintura, encosta o rosto no rosto dela e seus lábios se unem num beijo profundo, penetrante e longo, selando um instante sublime entre as duas mulheres, com intimidade e delicadeza.

- Gostosa! – murmura Nathalie, ofegante.

- Ai!...

 - Beija bem, querida.

- Satisfeita?

- Muito.

- Criatura, isso nunca aconteceu comigo – conta Morana com as faces coradas.

- Sempre tem a primeira vez. Gostou?

- Acho que sim.

- Acha?

- Sim, gostei.

- Sabor de quero mais?

Risos. Nathalie com entusiasmo na voz:

- Sabe de uma coisa, Morana, não é capaz de imaginar tudo que pode uma boca feminina. É surpreendente!

- Imagino.

Num ímpeto de satisfação, Nathalie se ajoelha e abraça a pintora à altura da cintura:

- Linda!

- Huuuummmm!

- Beijo dado assim, com paixão, pode ser o início de um grande amor, que tal?

- É?

- Está vendo que nós formamos um belo par?

- Ã-Hã.

- Agora, querida, é que não deixo você escapar mesmo. Seremos uma a sapatilha da outra – brinca a jovem.

- Sapatilha?

- Sim. A namorada, exageradamente feminina, de outra mulher exageradamente feminina.

- Mocinha levada!

- Lembrei-me do poeta Manoel de Barros.

- Por quê?

- Perguntaram a ele se as dálias eram lésbicas.

- O que ele respondeu?

- Não posso garantir nem desmentir, disse ele. Uma Verbena contou-me que, quando as Dálias se encontram, elas se amam. Todas as flores se amam. Todas as flores se amam de flor em flor. Sonho lindo de viver.

Risos.

- Duas flores que se atraem! – exclama a pintora com um aceno leve de cabeça. - Interessante, não?

Nesse momento, sem desviar os olhos uma da outra, calam-se pensativas. Em seguida, Nathalie sorri e abraça com mais entusiasmo a amiga, acariciando seus cabelos.

- Você é tudo que eu quero.

- Então, Nathalie, sou uma Dália?

- Dália sedenta de amores. Você é fantástica, minha flor.

Morana abre um sorriso radioso de confirmação do sintoma da vontade de se entregar aos braços da outra.

- Estou super feliz com essa história, viu? – confessa.

 - Maravilha.

Sob o toque malicioso da jovem, Morana experimentava o calor de novas sensações, percorrendo-lhe o corpo. Cerra os olhos, respira profundamente e se oferece cheia de vontade aos braços de Nathalie:

- Ai, Menina, agora você vai me ter. Vai me ter. Serei sua, levada por um esse furacão que despertou dentro de mim. Vamos fazer uma coisa que a muito tempo a gente não faz. Fica comigo, vem...

Com os rostos colados, corriam as mãos nas costas uma da outra de modo atrevido e sensual. Em seguida, a pintora toma Nathalie pelos braços e, aos beijos, caminham juntas para seu quarto, deixando para trás peça por peça de suas roupas, espalhadas pela casa.

E assim, nuas e envolvidas, entram no banheiro, apagam a luz e se amam pela primeira vez debaixo de uma ducha de água quente. Depois, enroladas em toalhas, se jogam na cama larga de Morana, alimentadas por uma alegria nova de viver.

- Oh, Nathalie! – expressa Morana, como olhos úmidos.

- Você está bem? Sente-se bem?

 - Muito bem. Muito, muito bem.

- É assim mesmo, querida, o calor do corpo fala mais alto, queima. Nessa hora é que a gente vê que a vida não é medida pelo número de respirações que damos, mas sim, pelos momentos que nos fazem perder o fôlego de tanto amor, de tanta surpresa e êxtases de felicidade - garante a jovem.

- Ã-Hã.

- É nessa hora, querida, que experimentamos os vários graus de satisfação, sentindo que o amor sai pelos poros numa urgência louca para fazer a gente perder o juízo.

- Um sonho!?...

- Sonhar é acordar para dentro, dizia Mário Quintana.

- Pois então...

- Pois então vou te fazer sonhar muitas e muitas vezes, viu?

Nesse instante, Morana, num misto de esplendor e timidez, joga a toalha para o chão, deita na cama e se abre ardente de desejos. Nathalie senta-se na beirada do colchão e começa a passear as mãos pelo longo e esbelto corpo da amiga, que se agitava com um risinho quente e curto, como de cócegas.

Em seguida, ela passa a língua no seu rosto macio, beija-lhe a ponta do nariz e a boca, enquanto uma das mãos, enfiada por entre suas coxas, roçava-lhe, delicadamente, os polpudos beicinhos vazados entre os pelos louros e sedosos de uma concha estreita.

- Ai, que gostoso! – contorce a pintora.

- Tudo de bom, ‘né?

- Tudo.

- Pois fique sabendo que é mais satisfeito com a vida quem está feliz. É nessa hora que o corpo, querida, produz uma quantidade maior de hormônios do bem-estar para, de fato, nos enlouquecer.

- Ã-Hã.

Nesse momento, as duas se fundem novamente, consumidas por um desejo incontrolável. Uma dentro da outra, começam a rolar sobre os lençóis numa fogosa coreografia, marcada pelas formas mais belas que a natureza já produziu. E assim..., assim..., assim..., soltando gritinhos um após o outro, juntas elas chegam ao êxtase, embriagadas pelo gozo.

Depois de um longo silêncio, louca de paixão, Nathalie acaricia os cabelos da pintora, dizendo a meia voz:

- Quero dormir abraçadinha com você, querida. Posso?

- Pode.

- Mas, antes diga que me ama, preciso disso.

- Ó, querida...

- Agora podemos dormir abraçadinhas.

Pausa. Nathalie:

- Antes quero contar uma historinha que lembrei, posso?

- Conta.

- Quando levaram à rainha Victória a lei que condenava o homossexualismo, a gordinha ficou fula de raiva. Não deu outra: com uma penada riscou a última cláusula, justificando que mulheres não fazem essas coisas. Entendeu?

- É o que estou pensando?

- Não poderia ser diferente.

- U-lá-lá!  Por isso, meu amor, não tenho medo de sofrer, pois todos os caminhos me levam a você – cantarola Nathalie um trecho da canção de Vinicius de Moraes.

- Emoções positivas realmente deixam as pessoas inebriadas pela química natural da felicidade. Nada, nada melhor. Nada. Merece champanhe francês para comemorar.

Nathalie ri para a amante com ar de muito contente:

- Querida, comemorar com champanhe por quê? Comemore aqui na volúpia de meus braços, soltos no infinito que cada uma de nós traz dentro de si, e deixe sua imaginação voar, voar, voar. A profundidade de nosso universo depende do quanto cavamos, pode crer.

Morana também solfeja Vinicius:

- Que nada nesse mundo levará você de mim...

- Hummmmmm!

- Merecemos flores do campo?

- Por quê?

- Representa a felicidade – garante a pintora toda feliz.

Risos serenos. As duas resistiram ao sono enquanto puderam, até que adormeceram com as pernas e braços emaranhados uma na outra, e os corações batendo na mesma sintonia.

Lá de fora uma fragrância silvestre invadia o quarto, anunciando a chuva fina que começava a cair, calmamente. Vinha do Parque. Comemorava a primavera de dois corações dentro do coração da cidade, que amanhecia em tons mais rosa, fazendo brilhar as gotas de água que escoriam do vidro da janelas daquele apartamento, de frente para um Parque Ecológico Florestal.

 

 

                                                        - Fim –

 

 







 

 

 * FBN© 2013 * VERTIGEM SEM FIM – Capítulo VIII - Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/8viii-intimidade-e-delicadeza.html?zx=2238b9b50c2d7e6b

 

  - Fim –