domingo, setembro 15, 2013

01/ I – PRAZER EM TE CONHECER



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Imagem da Internet
 
 

 
 

Madrugada. Debruçada no parapeito da varanda do seu apartamento, Morana apreciava a ligeira brisa, misturada ao aroma de plantas, vinda da grande área verde da cidade de Belo Horizonte, do Parque Municipal. Nada melhor, a paisagem distribui frescor pelos ambientes. É um convite para ficar acordada a noite toda. Nessa hora da noite até parece que os relógios se movimentam, preguiçosamente, nos relógios da cidade.

Minutos depois ela volta para seu atelier.

- Verde que te quero ver-te, sempre – murmura enquanto fechava a divisória de vidro da sala.

Senta-se de novo na banqueta em frente ao cavalete, onde pintava o retrato de Nathalie. Cotovelos apoiados nos joelhos, o copo vazio na mão direita, repete várias vezes entre os lábios:

- Belo quadro! Belo Quadro, c’est beau!

Em seguida, levanta-se. Com as mãos acaricia as bordas da tela por um instante, encolhe o corpo e apaga as luzes do atelier. Abraça a si mesma e vai para seu quarto de dormir, mergulhada em pensamentos.

No dia seguinte, à noite, a pintora recebe a modelo para os retoques finais na tela. Sentadas na sala de estar, a pintora:

- Tudo bem com você, querida?

- Muito bem. Ansiosa para ver meu quadro.

- Está no cavalete, praticamente acabado.

- Vamos lá?

- Claro, vamos ver. Um retoquezinho e pronto. O melhor retrato que já pintei.

 - Bom sinal, querida. Uma obra de arte precisa, em primeiro lugar, ser apreciada pelo seu criador.

- Claro.

- Deve mesmo ter ficado o máximo.

Pausa. Morana:

- Sou suspeita para falar, mas posso dizer que ficou muito bom mesmo.

- Imagino.

- Desculpe-me. Em arte, modéstia à parte, alardear o próprio trabalho ajuda a reforçar a autoconfiança, ajuda a elevar a autoestima e a neutralizar os pensamentos de autodepreciação. Entende?

- Sem dúvida.

 – Então vamos. Entre de olhos fechados, pode ser?

 – Qual o mistério?

– Feche os olhos e pegue na minha mão.

As duas adentram no atelier. Logo a artista tira o pano que cobria o cavalete e anuncia com entusiasmo:

– Agora, pode abrir os olhos.

A jovem surpreende-se ao ver o quadro. Satisfeita abraça Morana com força.

- Ai, nem acredito!
 – Gostou?

– Que talento, meu Deus!
- Dei tudo de mim – conta a pintora.

- Divino!

- Bom ouvir isso de sua boca, porque a função da arte é tocar as pessoas, embelezar a vida delas com todas as gamas de matizes.

- Principalmente, quando é uma obra de uma artista como você.

- Hummm!

- Adoro seu modo de pintar.

- Obrigada.

- Morana, você tem um estilo tão seu, que a gente bate os olhos numa tela e logo percebe de quem é a mão e de quem é o traço. É sério.

- Assim falando me deixa emocionada, viu?

Risos. Nathalie pousa um da mãos suavemente no ombro da pintora, contando:

- Meu sonho de criança se torna realidade.

- Sério?

- Admirava o quadro As Meninas Cahen d'Anvers, do pintor Renoir.

- Rosa e Azul?

- Ele mesmo. Até hoje me deixa avoada e, totalmente, no ar por causa da beleza, repleta de nobreza.

- Indiscutivelmente.

- Vivia falando que um dia seria pintada por um grande artista. Agora, posso dizer que o sonho se materializou.

- Não tão grande assim, mas...

- De talento inquestionável. Estou feliz.

- É o que importa.

- Querida, quando posso levar o quadro para casa?

- Amanhã, depois..., quando quiser.

- Uau! Mesmo com a tinta fresca?

- Só ter cuidado.
- Pego amanhã, certo?
 - Combinado. Espero que seu pai goste.

- Vai amar. Eu sei.

- E sentir muito orgulho da filha bonita que tem, não é mesmo?

Risos. Nathalie:

- Com certeza.

- Legal.

- Devo a você a metade do preço combinado, não é? Amanhã trago o cheque do restante.

- Não precisa.
 - Quer receber em dinheiro vivo?

- Não. Não é isso. Não precisa pagar o restante.

- Como assim?

- Presente de aniversário! Esse quadro é meu presente para você. Gostaria até de devolver o dinheiro que já me deu.

 - O quê?

- Isso mesmo.

- Não, não posso aceitar.

Morana admirada:

- Como não?

- Deixe de ser boba.

- Assim fica um presente pela metade.
 - De jeito nenhum. Não seja tão desapegada a dinheiro...
 - Ora, Nathalie!

- Tudo bem. Aceito o quadro como presente de aniversário, mas tem que esquecer essa tolice restituir algum dinheiro. Certo?

 - Se pensa desse jeito, tudo bem.

- Então fica assim, está bem?

- Tudo.

Nathalie abraça a pintora novamente, comovida:

- Muito. Muito obrigada mesmo!

- De coração, menina.

- Assim me emociona mais ainda.
         - Que bom!
         - Sabe o que vou fazer com esse retrato?

 - O quê?

- Escanear e substituir a foto do meu perfil nos meus blogs. Também no Facebook.

– Você tem site na Internet?

– Vários. Não é de hoje que estou bombando na Web. E você?

– Sou doida para ter um com imagens de meus quadros, principalmente, dos que tomam outros caminhos pelo mundo.

– Deixa comigo que faço o seu. Os meus são de um provedor muito fácil de editar. E de graça, o que é melhor ainda.

– Jura?

– Pode selecionar fotos dos quadros que quer publicar que eu faço tudo. Vai adorar. Será seu marketing sócio virtual. É o maior ‘barato’!

– Ai, nem acredito!

Nesse instante, Nathalie fica de pé, anunciando:

- Bem, vou nessa.
 - Precisa ir tão rápido assim, menina?

A jovem pensa um pouco e responde:

- Não. Muito pelo contrário, estou livre.
 - Livre?

- Sim, compromisso nenhum. Mas, imagino que você, sim, deve ter muita coisa para fazer.

- Nada importante. Que tal um vinho? Rapidinho, só para brindar seus 22 anos.

– Bebida dos Deuses! Acredita que até hoje não aprendi a fazer a linha fina de degustar vinho?

 – Não sabe o que perde. Vinho de boa safra é muito bom.

- Pelo jeito, você é bem entendida no assunto?

- Não. Não. Aprecio apenas. Aceita uma taça?

- Aceito.
 - Mas se preferir, na geladeira tem cerveja – prontifica Morana.

- Você escolhe.

- Um vinho do Porto, que tal?

- Vinho do Porto é sempre muito bom.

- Toma uma taça comigo?

- Como quiser.

- Pois então vamos voltar para a sala.

 - Okay!

Morana toma a jovem pelo braço e, juntas, seguem para o hall do apartamento. Nathalie senta-se numa poltrona, com as mãos contra o peito e o olhar fixo no teto, enquanto a outra seguia para a cozinha. Minutos depois, Morana volta com a garrafa de vinho e uma travessa cheia de azeitonas. Enche as taças, oferece uma à amiga e se acomoda ao seu lado, sorridente:

– Tim-Tim! À votre santé!

- Hã?

- À votre santé.  Em francês, quer dizer: à sua saúde.

- Ah, é!

- Querida, aniversariante...

- Ai, estou tão feliz! Tim-Tim!

- Tim-Tim!

- Agora, um brinde à melhor pintora do mundo.

- Imagina! Mesmo assim: Saúde!
 - Ao meu quadro.
 – Tim-Tim!

Risos. Nathalie elogia o vinho:

 – Saboroso.

- Que bom que gostou.

 - Gostei. E olha que, como disse, nunca fui fã de vinho.

- Seara antiga, querida, o que traz bem-estar, garantem os enólogos. Depois abro outra, se quiser.

- Ã-Hã.

Pausa. Morana revela, com o olhar fixo nos olhos da amiga:

- A juventude me cativa, adoro conversar com vocês.

- Percebi logo. A primeira vez que estive com você, fiquei impressionada com a maneira jovial que trata as pessoas mais jovens. Me encantou, viu?

- Temos sempre o que aprender com a juventude, não é mesmo?

Nesse momento, olhando em volta, Nathalie passa a observar detalhes da casa da pintora. E elogia:

– Seu apartamento é lindo, Morana. Tem grife.

 - Acha?

- Passa um visual descontraído, agradável. Adoro ver quadros bem coloridos, espalhados por todos os cantos.

- Bem, em casa de ferreiro espeto de ferro! – brinca a pintora.

 - E essa parede cheia de rostos femininos, quantos foram pintados por você?

- Boa parte. Aquele é do Chanina, esse aqui do Ildeu Moreira...
- Pelo jeito, gosta de retratar mulheres.

- Desenho desde pequenina. Quando um lápis caiu em minhas mãos, a primeira coisa que rabisquei foi uma boneca de trancinhas. A partir daí, percebi que meu universo criativo é formado pela forte presença feminina. No fundo, no fundo acho que sempre pintei a mim mesma, em diferentes épocas e tons, para me acompanhar o resto da vida.

- Pode ser.

- Nós mulheres temos muito disso, não é mesmo?

- Talvez.

Pausa. Morana com testa franzida:

- Possuímos uma mística. Eu, por exemplo, quando pinto uma mulher, o quadro pode ser voluptuoso, sensual, mas não o vejo como objeto de consumo. O meu harém não é um harém onde as mulheres entram com sandálias medidas.

Risos. Nathalie:

- Querida, amei aquele arranjo de flores sobre a cômoda, onde comprou?

- Ah, a jarra?!... Foi um amigo, um velho e sensível amigo que me trouxe de presente.

- Gosto muito dessa flor, a Sempre-Viva. Fala ao coração, com um acentuado toque de romantismo.

- Beleza! Eu chamo isso de ‘a força da delicadeza’ que dá vida à casa.

- Hummmmm!

- Por isso fico feliz de ouvir isso de você. Quer feixe de flores?

- Uai!

- Quer sim. Vou apanhar umas para você levar.

- Ah, quero. Variedades com tantas cores assim nunca tinha visto. Obrigada.


 
 * FBN© 2013 * PRAZER EM TE CONHECER – Cap I de  "ENRE ELAS"-  Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link:  http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/1-i-prazer-em-te-conhecer.html?zx=ab9ef0d3e3373a80

 

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