Madrugada. Debruçada no
parapeito da varanda do seu apartamento, Morana apreciava a ligeira brisa, misturada
ao aroma de plantas, vinda da grande área verde da cidade de Belo Horizonte, do
Parque Municipal. Nada melhor, a paisagem distribui frescor pelos ambientes. É
um convite para ficar acordada a noite toda. Nessa hora da noite até parece que
os relógios se movimentam, preguiçosamente, nos relógios da cidade.
Minutos depois ela volta
para seu atelier.
- Verde que te quero ver-te, sempre – murmura enquanto fechava a
divisória de vidro da sala.
Senta-se de novo na
banqueta em frente ao cavalete, onde pintava o retrato de Nathalie. Cotovelos
apoiados nos joelhos, o copo vazio na mão direita, repete várias vezes entre os
lábios:
- Belo quadro! Belo Quadro,
c’est beau!
Em seguida, levanta-se. Com
as mãos acaricia as bordas da tela por um instante, encolhe o corpo e apaga as
luzes do atelier. Abraça a si mesma e vai para seu quarto de dormir, mergulhada
em pensamentos.
No dia seguinte, à noite, a
pintora recebe a modelo para os retoques finais na tela. Sentadas na sala de
estar, a pintora:
- Tudo bem com você,
querida?
- Muito bem. Ansiosa para
ver meu quadro.
- Está no cavalete,
praticamente acabado.
- Vamos lá?
- Claro, vamos ver. Um
retoquezinho e pronto. O melhor retrato que já pintei.
- Bom sinal, querida. Uma obra de arte
precisa, em primeiro lugar, ser apreciada pelo seu criador.
- Claro.
- Deve mesmo ter ficado o
máximo.
Pausa. Morana:
- Sou suspeita para falar,
mas posso dizer que ficou muito bom mesmo.
- Imagino.
- Desculpe-me.
Em arte, modéstia à parte, alardear o próprio trabalho ajuda a reforçar a autoconfiança,
ajuda a elevar a autoestima e a neutralizar os pensamentos de autodepreciação.
Entende?
- Sem
dúvida.
– Então vamos. Entre de olhos fechados, pode
ser?
– Qual o mistério?
– Feche os olhos e pegue na minha mão.
As duas adentram no atelier. Logo a artista tira o pano que cobria o
cavalete e anuncia com entusiasmo:
– Agora, pode abrir os
olhos.
A jovem surpreende-se ao ver
o quadro. Satisfeita abraça Morana com força.
- Ai, nem acredito!
– Gostou?
– Gostou?
– Que talento,
meu Deus!
- Dei tudo de mim – conta a pintora.
- Dei tudo de mim – conta a pintora.
- Divino!
- Bom ouvir isso de sua boca, porque a função da arte é tocar as
pessoas, embelezar a vida delas com todas as gamas de matizes.
- Principalmente, quando é uma obra de uma artista como você.
- Hummm!
- Adoro seu modo de pintar.
- Obrigada.
- Morana, você tem um estilo tão seu, que a gente bate os olhos
numa tela e logo percebe de quem é a mão e de quem é o traço. É sério.
- Assim falando me deixa emocionada, viu?
Risos. Nathalie pousa um da mãos suavemente no ombro da pintora,
contando:
- Meu sonho de criança se torna realidade.
- Sério?
- Admirava o quadro As Meninas Cahen d'Anvers, do pintor Renoir.
- Rosa e Azul?
- Ele mesmo. Até hoje me deixa avoada e, totalmente, no ar por
causa da beleza, repleta de nobreza.
- Indiscutivelmente.
- Vivia falando que um dia seria pintada por um grande artista.
Agora, posso dizer que o sonho se materializou.
- Não tão grande assim, mas...
- De talento inquestionável. Estou feliz.
- É o que importa.
- Querida, quando posso levar o quadro para casa?
-
Amanhã, depois..., quando quiser.
- Uau! Mesmo
com a tinta fresca?
- Só ter
cuidado.
- Pego amanhã, certo?
- Combinado. Espero que seu pai goste.
- Pego amanhã, certo?
- Combinado. Espero que seu pai goste.
- Vai
amar. Eu sei.
- E
sentir muito orgulho da filha bonita que tem, não é mesmo?
Risos. Nathalie:
- Com
certeza.
- Legal.
- Devo a você a metade do
preço combinado, não é? Amanhã trago o cheque do restante.
- Não precisa.
- Quer receber em dinheiro vivo?
- Quer receber em dinheiro vivo?
- Não. Não é isso. Não
precisa pagar o restante.
- Como assim?
- Presente de aniversário!
Esse quadro é meu presente para você. Gostaria até de devolver o dinheiro que
já me deu.
- O quê?
- Isso mesmo.
- Não, não posso aceitar.
Morana admirada:
- Como não?
- Deixe de ser boba.
- Assim fica um presente
pela metade.
- De jeito nenhum. Não seja tão desapegada a dinheiro...
- Ora, Nathalie!
- De jeito nenhum. Não seja tão desapegada a dinheiro...
- Ora, Nathalie!
- Tudo bem. Aceito o quadro como
presente de aniversário, mas tem que esquecer essa tolice restituir algum dinheiro.
Certo?
-
Se pensa desse jeito, tudo bem.
- Então fica assim, está bem?
- Tudo.
Nathalie abraça a pintora
novamente, comovida:
- Muito.
Muito obrigada mesmo!
- De
coração, menina.
- Assim me emociona mais
ainda.
- Que bom!
- Sabe o que vou fazer com esse retrato?
- Que bom!
- Sabe o que vou fazer com esse retrato?
- O quê?
- Escanear e substituir a
foto do meu perfil nos meus blogs.
Também no Facebook.
– Você tem site na Internet?
– Vários. Não é de hoje que
estou bombando na Web. E você?
– Sou doida para ter um com
imagens de meus quadros, principalmente, dos que tomam outros caminhos pelo
mundo.
– Deixa comigo que faço o
seu. Os meus são de um provedor muito fácil de editar. E de graça, o que é
melhor ainda.
– Jura?
– Pode selecionar fotos dos
quadros que quer publicar que eu faço tudo. Vai adorar. Será seu marketing sócio virtual. É o maior
‘barato’!
– Ai, nem acredito!
Nesse instante, Nathalie
fica de pé, anunciando:
- Bem, vou nessa.
- Precisa ir tão rápido assim, menina?
- Precisa ir tão rápido assim, menina?
A jovem pensa um pouco e
responde:
- Não. Muito
pelo contrário, estou livre.
- Livre?
- Livre?
- Sim, compromisso nenhum. Mas,
imagino que você, sim, deve ter muita coisa para fazer.
- Nada importante. Que tal
um vinho? Rapidinho, só para brindar seus 22 anos.
– Bebida dos Deuses! Acredita que até hoje não aprendi a fazer a
linha fina de degustar vinho?
– Não sabe o que perde. Vinho
de boa safra é muito bom.
- Pelo jeito, você é bem entendida no assunto?
- Não. Não. Aprecio apenas. Aceita uma taça?
- Aceito.
- Mas se preferir, na geladeira tem cerveja – prontifica Morana.
- Mas se preferir, na geladeira tem cerveja – prontifica Morana.
- Você escolhe.
- Um
vinho do Porto, que tal?
- Vinho do Porto é
sempre muito bom.
- Toma uma taça comigo?
- Como quiser.
- Pois então vamos voltar para a sala.
-
Okay!
Morana toma a jovem pelo
braço e, juntas, seguem para o hall
do apartamento. Nathalie senta-se numa poltrona, com as mãos contra o peito e o
olhar fixo no teto, enquanto a outra seguia para a cozinha. Minutos depois, Morana
volta com a garrafa de vinho e uma travessa cheia de azeitonas. Enche as taças,
oferece uma à amiga e se acomoda ao seu lado, sorridente:
– Tim-Tim!
À votre santé!
- Hã?
- À votre santé. Em francês,
quer dizer: à sua saúde.
- Ah, é!
- Querida, aniversariante...
- Ai, estou tão feliz! Tim-Tim!
- Tim-Tim!
- Agora, um brinde à melhor
pintora do mundo.
- Imagina!
Mesmo assim: Saúde!
- Ao meu quadro.
– Tim-Tim!
- Ao meu quadro.
– Tim-Tim!
Risos. Nathalie elogia o vinho:
– Saboroso.
- Que bom
que gostou.
- Gostei. E olha que, como disse, nunca fui fã
de vinho.
- Seara antiga, querida, o
que traz bem-estar, garantem os enólogos. Depois abro outra, se quiser.
- Ã-Hã.
Pausa. Morana revela, com o
olhar fixo nos olhos da amiga:
- A juventude me cativa,
adoro conversar com vocês.
- Percebi logo. A primeira
vez que estive com você, fiquei impressionada com a maneira jovial que trata as
pessoas mais jovens. Me encantou, viu?
- Temos sempre o que
aprender com a juventude, não é mesmo?
Nesse momento, olhando em
volta, Nathalie passa a observar detalhes da casa da pintora. E elogia:
– Seu apartamento é lindo, Morana.
Tem grife.
- Acha?
- Passa um visual
descontraído, agradável. Adoro ver quadros bem coloridos, espalhados por todos
os cantos.
- Bem, em casa de ferreiro
espeto de ferro! – brinca a pintora.
- E essa parede cheia de rostos femininos,
quantos foram pintados por você?
- Boa parte. Aquele é do
Chanina, esse aqui do Ildeu Moreira...
- Pelo jeito, gosta de retratar mulheres.
- Pelo jeito, gosta de retratar mulheres.
- Desenho desde pequenina.
Quando um lápis caiu em minhas mãos, a primeira coisa que rabisquei foi uma
boneca de trancinhas. A partir daí, percebi que meu universo criativo é formado
pela forte presença feminina. No fundo, no fundo acho que sempre pintei a mim
mesma, em diferentes épocas e tons, para me acompanhar o resto da vida.
- Pode ser.
- Nós mulheres temos muito
disso, não é mesmo?
- Talvez.
Pausa. Morana com testa
franzida:
- Possuímos uma mística.
Eu, por exemplo, quando pinto uma mulher, o quadro pode ser voluptuoso,
sensual, mas não o vejo como objeto de consumo. O meu harém não é um harém onde
as mulheres entram com sandálias medidas.
Risos. Nathalie:
- Querida, amei aquele
arranjo de flores sobre a cômoda, onde comprou?
- Ah, a jarra?!... Foi um
amigo, um velho e sensível amigo que me trouxe de presente.
- Gosto muito dessa flor, a
Sempre-Viva. Fala ao coração, com um acentuado toque de romantismo.
- Beleza! Eu chamo isso de
‘a força da delicadeza’ que dá vida à casa.
- Hummmmm!
- Por isso fico feliz de
ouvir isso de você. Quer feixe de flores?
- Uai!
- Quer sim. Vou apanhar
umas para você levar.
- Ah, quero. Variedades com
tantas cores assim nunca tinha visto. Obrigada.
* FBN© 2013 * PRAZER EM TE CONHECER – Cap I de "ENRE ELAS"- Categoria: Romance - Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido
pela Google - Ilust.: Imagens Internet – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/1-i-prazer-em-te-conhecer.html?zx=ab9ef0d3e3373a80
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