domingo, setembro 15, 2013

* O AMOR HOMO-ERÓTICO FEMININO



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Interligação Feminina.  Símbolo criado nos anos 70, usado em tudo o que tenha a ver com lésbicas,
até mesmo em arte e em joalharia.
 


Imagem: Internet


 


O AMOR HOMO-ERÓTICO FEMININO

 

 

Não é possível determinar o momento na História da Humanidade em que teve início o homossexualismo feminino, mas há alguns registros históricos que traçam a evolução do lesbianismo desde tempos remotos da civilização.

 De acordo com alguns historiógrafos, relações entre mulheres eram socialmente aceitas, principalmente, em regiões da Albânia, Iugoslávia , Itália e China (dui shi). Entre os registros mais conhecidos, destacam-se o Código de Hammurabi (1.770 a.C.), onde aparece a figura de Salzikrum, ‘filha-macho’ que podia ter uma ou várias esposas. Outra importante referência ao fato está nos relatos sobre a princesa, poeta e sacerdotisa Enheduanna, filha do rei Sargão I, da Acádia - ano 2.300 antes de Cristo -, autora de dezenas de cânticos em homenagem a Inanna, deusa do Amor e da Guerra.

Recentemente, Judy Grahn, pesquisadora da cultura homossexual e mestre do California Institute of Integral Studies, fez uma apresentação dos textos poéticos de Enheduanna, em que exaltava a beleza sensual de Inanna.

Conta história que, entre 630-560 a.C, o mundo conheceu Safo, a bela poetiza grega que viveu na cidade de Lesbos, onde dedicou-se a escrever poemas sobre o amor sexual, o amor emocional e o platônico entre ela e outras mulheres do seu tempo. Safo de Lesbos, também conhecida como ativista da causa feminista, é considerada a primeira mulher que lutou por direitos iguais entre os humanos.

De qualquer maneira, a importância do trabalho e os interesses pessoais da poetiza foram de tal forma importante, que o termo ‘safismo’ se tornou sinônimo de ‘lesbianismo’ a partir da Era Vitoriana.

 

Roma Antiga


 No primeiro século, depois de Cristo, houve uma série de referências à homossexualidade feminina na sociedade romana, que condenava qualquer atividade da mulher fora do papel de esposa e mãe. Tanto que Ovídio, mesmo revelando práticas com garotos, demonstrava visão negativa do amor lésbico.

Algumas evidências apontam que, nas províncias romanas com influência grega, o lesbianismo não era visto tão negativamente. No Egipto foram encontrados escritos, supostamente, da princesa Sarapias fazendo corte para conquistar o coração de uma outra mulher de nome Herais.
 

Simbologia



Labrys


 


Um dos símbolos lésbidos usado como cetro pela deusa DeméterÁrtemis - deusa da Terra. Como instrumento bélico era a principal arma das guerreiras Amazonas.



O Triângulo negro marcava na era nazista pessoas ditas "anti-sociais", entre elas as mulheres homossexuais. Do mesmo modo, para os homens homossexuais os nazis usavam o triângulo rosa, e para os judeus a conhecida estrela.


Duplo Vênus. É o símbolo do relacionamento entre duas mulheres criado nos anos 1970.


 


**  FBN© - 2013 ENTRE ELAS - Categoria: Romance. Autor: Welington Almeida Pinto – Texto original em Português – Ilust.: Imagens Internet  - Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/lesbian-ismo.html?zx=22c8f67419c2170c

 

 

 

01/ I – PRAZER EM TE CONHECER



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Madrugada. Debruçada no parapeito da varanda do seu apartamento, Morana apreciava a ligeira brisa, misturada ao aroma de plantas, vinda da grande área verde da cidade de Belo Horizonte, do Parque Municipal. Nada melhor, a paisagem distribui frescor pelos ambientes. É um convite para ficar acordada a noite toda. Nessa hora da noite até parece que os relógios se movimentam, preguiçosamente, nos relógios da cidade.

Minutos depois ela volta para seu atelier.

- Verde que te quero ver-te, sempre – murmura enquanto fechava a divisória de vidro da sala.

Senta-se de novo na banqueta em frente ao cavalete, onde pintava o retrato de Nathalie. Cotovelos apoiados nos joelhos, o copo vazio na mão direita, repete várias vezes entre os lábios:

- Belo quadro! Belo Quadro, c’est beau!

Em seguida, levanta-se. Com as mãos acaricia as bordas da tela por um instante, encolhe o corpo e apaga as luzes do atelier. Abraça a si mesma e vai para seu quarto de dormir, mergulhada em pensamentos.

No dia seguinte, à noite, a pintora recebe a modelo para os retoques finais na tela. Sentadas na sala de estar, a pintora:

- Tudo bem com você, querida?

- Muito bem. Ansiosa para ver meu quadro.

- Está no cavalete, praticamente acabado.

- Vamos lá?

- Claro, vamos ver. Um retoquezinho e pronto. O melhor retrato que já pintei.

 - Bom sinal, querida. Uma obra de arte precisa, em primeiro lugar, ser apreciada pelo seu criador.

- Claro.

- Deve mesmo ter ficado o máximo.

Pausa. Morana:

- Sou suspeita para falar, mas posso dizer que ficou muito bom mesmo.

- Imagino.

- Desculpe-me. Em arte, modéstia à parte, alardear o próprio trabalho ajuda a reforçar a autoconfiança, ajuda a elevar a autoestima e a neutralizar os pensamentos de autodepreciação. Entende?

- Sem dúvida.

 – Então vamos. Entre de olhos fechados, pode ser?

 – Qual o mistério?

– Feche os olhos e pegue na minha mão.

As duas adentram no atelier. Logo a artista tira o pano que cobria o cavalete e anuncia com entusiasmo:

– Agora, pode abrir os olhos.

A jovem surpreende-se ao ver o quadro. Satisfeita abraça Morana com força.

- Ai, nem acredito!
 – Gostou?

– Que talento, meu Deus!
- Dei tudo de mim – conta a pintora.

- Divino!

- Bom ouvir isso de sua boca, porque a função da arte é tocar as pessoas, embelezar a vida delas com todas as gamas de matizes.

- Principalmente, quando é uma obra de uma artista como você.

- Hummm!

- Adoro seu modo de pintar.

- Obrigada.

- Morana, você tem um estilo tão seu, que a gente bate os olhos numa tela e logo percebe de quem é a mão e de quem é o traço. É sério.

- Assim falando me deixa emocionada, viu?

Risos. Nathalie pousa um da mãos suavemente no ombro da pintora, contando:

- Meu sonho de criança se torna realidade.

- Sério?

- Admirava o quadro As Meninas Cahen d'Anvers, do pintor Renoir.

- Rosa e Azul?

- Ele mesmo. Até hoje me deixa avoada e, totalmente, no ar por causa da beleza, repleta de nobreza.

- Indiscutivelmente.

- Vivia falando que um dia seria pintada por um grande artista. Agora, posso dizer que o sonho se materializou.

- Não tão grande assim, mas...

- De talento inquestionável. Estou feliz.

- É o que importa.

- Querida, quando posso levar o quadro para casa?

- Amanhã, depois..., quando quiser.

- Uau! Mesmo com a tinta fresca?

- Só ter cuidado.
- Pego amanhã, certo?
 - Combinado. Espero que seu pai goste.

- Vai amar. Eu sei.

- E sentir muito orgulho da filha bonita que tem, não é mesmo?

Risos. Nathalie:

- Com certeza.

- Legal.

- Devo a você a metade do preço combinado, não é? Amanhã trago o cheque do restante.

- Não precisa.
 - Quer receber em dinheiro vivo?

- Não. Não é isso. Não precisa pagar o restante.

- Como assim?

- Presente de aniversário! Esse quadro é meu presente para você. Gostaria até de devolver o dinheiro que já me deu.

 - O quê?

- Isso mesmo.

- Não, não posso aceitar.

Morana admirada:

- Como não?

- Deixe de ser boba.

- Assim fica um presente pela metade.
 - De jeito nenhum. Não seja tão desapegada a dinheiro...
 - Ora, Nathalie!

- Tudo bem. Aceito o quadro como presente de aniversário, mas tem que esquecer essa tolice restituir algum dinheiro. Certo?

 - Se pensa desse jeito, tudo bem.

- Então fica assim, está bem?

- Tudo.

Nathalie abraça a pintora novamente, comovida:

- Muito. Muito obrigada mesmo!

- De coração, menina.

- Assim me emociona mais ainda.
         - Que bom!
         - Sabe o que vou fazer com esse retrato?

 - O quê?

- Escanear e substituir a foto do meu perfil nos meus blogs. Também no Facebook.

– Você tem site na Internet?

– Vários. Não é de hoje que estou bombando na Web. E você?

– Sou doida para ter um com imagens de meus quadros, principalmente, dos que tomam outros caminhos pelo mundo.

– Deixa comigo que faço o seu. Os meus são de um provedor muito fácil de editar. E de graça, o que é melhor ainda.

– Jura?

– Pode selecionar fotos dos quadros que quer publicar que eu faço tudo. Vai adorar. Será seu marketing sócio virtual. É o maior ‘barato’!

– Ai, nem acredito!

Nesse instante, Nathalie fica de pé, anunciando:

- Bem, vou nessa.
 - Precisa ir tão rápido assim, menina?

A jovem pensa um pouco e responde:

- Não. Muito pelo contrário, estou livre.
 - Livre?

- Sim, compromisso nenhum. Mas, imagino que você, sim, deve ter muita coisa para fazer.

- Nada importante. Que tal um vinho? Rapidinho, só para brindar seus 22 anos.

– Bebida dos Deuses! Acredita que até hoje não aprendi a fazer a linha fina de degustar vinho?

 – Não sabe o que perde. Vinho de boa safra é muito bom.

- Pelo jeito, você é bem entendida no assunto?

- Não. Não. Aprecio apenas. Aceita uma taça?

- Aceito.
 - Mas se preferir, na geladeira tem cerveja – prontifica Morana.

- Você escolhe.

- Um vinho do Porto, que tal?

- Vinho do Porto é sempre muito bom.

- Toma uma taça comigo?

- Como quiser.

- Pois então vamos voltar para a sala.

 - Okay!

Morana toma a jovem pelo braço e, juntas, seguem para o hall do apartamento. Nathalie senta-se numa poltrona, com as mãos contra o peito e o olhar fixo no teto, enquanto a outra seguia para a cozinha. Minutos depois, Morana volta com a garrafa de vinho e uma travessa cheia de azeitonas. Enche as taças, oferece uma à amiga e se acomoda ao seu lado, sorridente:

– Tim-Tim! À votre santé!

- Hã?

- À votre santé.  Em francês, quer dizer: à sua saúde.

- Ah, é!

- Querida, aniversariante...

- Ai, estou tão feliz! Tim-Tim!

- Tim-Tim!

- Agora, um brinde à melhor pintora do mundo.

- Imagina! Mesmo assim: Saúde!
 - Ao meu quadro.
 – Tim-Tim!

Risos. Nathalie elogia o vinho:

 – Saboroso.

- Que bom que gostou.

 - Gostei. E olha que, como disse, nunca fui fã de vinho.

- Seara antiga, querida, o que traz bem-estar, garantem os enólogos. Depois abro outra, se quiser.

- Ã-Hã.

Pausa. Morana revela, com o olhar fixo nos olhos da amiga:

- A juventude me cativa, adoro conversar com vocês.

- Percebi logo. A primeira vez que estive com você, fiquei impressionada com a maneira jovial que trata as pessoas mais jovens. Me encantou, viu?

- Temos sempre o que aprender com a juventude, não é mesmo?

Nesse momento, olhando em volta, Nathalie passa a observar detalhes da casa da pintora. E elogia:

– Seu apartamento é lindo, Morana. Tem grife.

 - Acha?

- Passa um visual descontraído, agradável. Adoro ver quadros bem coloridos, espalhados por todos os cantos.

- Bem, em casa de ferreiro espeto de ferro! – brinca a pintora.

 - E essa parede cheia de rostos femininos, quantos foram pintados por você?

- Boa parte. Aquele é do Chanina, esse aqui do Ildeu Moreira...
- Pelo jeito, gosta de retratar mulheres.

- Desenho desde pequenina. Quando um lápis caiu em minhas mãos, a primeira coisa que rabisquei foi uma boneca de trancinhas. A partir daí, percebi que meu universo criativo é formado pela forte presença feminina. No fundo, no fundo acho que sempre pintei a mim mesma, em diferentes épocas e tons, para me acompanhar o resto da vida.

- Pode ser.

- Nós mulheres temos muito disso, não é mesmo?

- Talvez.

Pausa. Morana com testa franzida:

- Possuímos uma mística. Eu, por exemplo, quando pinto uma mulher, o quadro pode ser voluptuoso, sensual, mas não o vejo como objeto de consumo. O meu harém não é um harém onde as mulheres entram com sandálias medidas.

Risos. Nathalie:

- Querida, amei aquele arranjo de flores sobre a cômoda, onde comprou?

- Ah, a jarra?!... Foi um amigo, um velho e sensível amigo que me trouxe de presente.

- Gosto muito dessa flor, a Sempre-Viva. Fala ao coração, com um acentuado toque de romantismo.

- Beleza! Eu chamo isso de ‘a força da delicadeza’ que dá vida à casa.

- Hummmmm!

- Por isso fico feliz de ouvir isso de você. Quer feixe de flores?

- Uai!

- Quer sim. Vou apanhar umas para você levar.

- Ah, quero. Variedades com tantas cores assim nunca tinha visto. Obrigada.


 
 * FBN© 2013 * PRAZER EM TE CONHECER – Cap I de  "ENRE ELAS"-  Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link:  http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/1-i-prazer-em-te-conhecer.html?zx=ab9ef0d3e3373a80

 

- 01-

 
 



* 02/II – FLORES RARAS

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Morana abre mais o sorriso:

- Ontem fui dormir tarde. Como disse, eu dava os retoques finais no seu quadro.

- Maravilha.

- Vez ou outra debruçava na janela para contemplar o infinito e espantar o sono. Adoro fazer isso em noites de céu limpo, ficar admirando o céu, enquanto respiro o ar que vem do Parque. É lindo, precisa ver! As estrelas assumem outro brilho.

- Ai, que inveja!

- Pode ter mesmo. É tudo muito bonito, visto daquela varanda com vista para uma paisagem verde desse tamanho. A cidade, então...

- Pensava em quê?

- Em tudo. Até na vida meio enfadonha de uma mulher quase sozinha no mundo.  Sabe como é: aquela puta sensação de vazio que, às vezes, perturba a gente. Arre! De vez em quando essa paranoia me pega, acredita?

- Meu Deus! Para mim vivia num mar de rosas com esse jeitinho Zen de encarar as coisas.

- Não é bem assim, Nathalie.  Há anos venho trabalhando para criar uma relação afetiva estável comigo mesma. Não é fácil. Invisto na atividade intelectual e cuido da saúde no geral. Tudo ajuda, mas...

- Não basta, ‘né?

- Não. Ainda bem que tenho essa imensa área verde na frente do meu apartamento para desistressar, quando preciso.  Um verdadeiro oásis no meio de uma selva de pedra, não é mesmo? O cheiro de mato refresca a rotina da minha casa. Me relaxa. Me coloca no centro de novo, reequilibra.

- Privilégio de poucos.

- Ando lá dentro até cansar, até soar. Gosto de respirar a natureza com todo o seu esplendor, distensionar os músculos e aprimorar a coordenação motora. Pelo menos três vezes por semana faço esse tipo de exercício.

- Deve ser bom mesmo!

- Muito bom, Nathalie. Aproveito bem os momentos ao ar livre no verde de uma área com bastante verde debaixo do meu nariz, onde a natureza empresta suas cores para tornar a arte de viver mais rica. Depois de uma caminhada dentro do Parque Municipal respiro melhor, fico bem mais disposta, mais light.

- Superbacana, ‘né?

- Sim, sim. No seu livro Devaneios do Caminhante Solitário, Rousseau escreve que existem poucos prazeres comparáveis a uma caminhada pelo campo. Desafio pesado para o corpo, mas alimento leve para a alma.

- Sem dúvida.

- Tem mais: quando as dificuldades me acabrunham de forma agressiva aqui fora, é lá dentro que faço o desbloqueio emocional, contanto borboletas ao som de uma majestosa barulheira de diferentes pássaros que cantam ao mesmo tempo.

- Ai, que inveja!

- Como também não há espaço melhor para manter um bom diálogo interior, para a gente tirar o pé do acelerador e dar colo a si mesma, principalmente, de manhãzinha. Lá dentro, sentada num banco ensolarado, me refúgio diante de uma folha de papel em branco, rabiscando qualquer coisa. Quando não acontece nada, pelo menos passei um bom momento exercitando o meu desenho.

- Muito legal.

- Não tem melhor hora para recompor sonhos esquecidos, cutucar nosso arquivo mental com suas lembranças, não é mesmo?

- Acho que não.

- Sem falar que, no Parque, a sensação é de estar bem longe do burburinho da cidade, porque o sentimento que existe ali é único, e gosto de separar isso do resto – justifica Morana.

- Ã-Hã!

- Ali está minha origem, querida. Nasci no descampado de uma cidadezinha, cercada de verde.

- Bom ouvir isso.

- Nathalie, eu não sou de malhar em academia. Nunca fui. Pegar pesado não é comigo. Gosto mesmo é de andar. Ando, ando sempre que posso. Desse jeito, penso que estou pegando leve com meu corpo, enquanto levo à alma tudo de bom que meus olhos enxergam por onde passo. Mudo sempre de trajeto, mesmo nas trilhas do Parque, claro.

Nathalie aquiesce com a cabeça, afirmando:

- Também caminho muito, Morana. Tem dia que corto boa parte da cidade a pé.

- Parabéns. Sinal que mira no futuro, nota 10. A endorfina que produzimos nessa hora é uma substância que, além de lubrificar e tonificar nossas juntas, produz no cérebro uma gostosa sensação de prazer e alegria.

- Sério?

- Sem falar que, de acordo com a ciência, a falta de exercícios físicos promove a redução progressiva da massa muscular, a sarcopenia. Também da massa óssea. Sabia disso?

- Por alto.

- Nossa saúde está em nossos pés, querida. Caminhada de uma hora por dia, aliada a uma dieta equilibrada, é tudo que precisamos para viver bem até o fim.

- Claro!

- Por isso mesmo só faço uma refeição por dia, jantar nem pensar. Não quero que a comida tenha tanto espaço em minha mente.

- Está certa.

- Isso me deixa contente, Nathalie. Quando estamos contentes, podemos fazer com que todos ficam felizes ao nosso lado. Nosso bom astral funciona como se fosse uma onda de boas coisas que transmitimos e a temos de volta, através do estado emocional positivo dos outros. Assim que funciona, viu?

- Pelo visto, você entende bem desse assunto.

- Tento. Como o conhecimento realmente não tem fronteiras, e hoje está acessível a todos os interessados em aprender e se desenvolver intelectualmente, eu leio muito sobre a saúde da mulher. A idade vai chegando, sabe como é.

- Por isso mesmo, também malho em academia. Pego pesado na musculação acreditando que, quanto maior a quantidade de exercícios, melhor para a saúde.

Pausa. Morana:

- Não sei se é por aí. Ficar ‘sarada’ virou moda.

- É a onda, sim. A moçada curte muito.

- Espelho, espelho meu!... – brinca a pintora.

- Muita gente quer moldar o corpo a qualquer custo, estimulada por um mundo que condena, sem piedade, jovens que tem uns quilinhos a mais.

- Não que seja contra, mas acho que é judiar demais do nosso corpo, alimentando ideais de beleza como estratégia para perder peso. Não podemos aceitar a imposição da bela imagem de jeito nenhum. Extrapolar não é legal.

- Talvez.

- Não vai pensar que recrimino as academias, só acho que o exagero não faz bem. Todo cuidado é pouco nessa prisão a padrão de beleza – avalia a pintora.

- Claro. Claro.

Pausa. Morana:

- Falando assim, até parece que estou me sentindo uma velha chata, não é mesmo?

- Nada disso.

- Também não sou uma garota como você.

- Sua boba, não precisa ter inveja, você tem um corpo de mocinha. Bonita desse jeito ainda vai curtir muitas e muitas emoções pela frente.

- Será?

- Tem silhueta de dar inveja a qualquer dondoca por aí. Sem falar de um rosto lindo, adocicado, que ainda conserva os sinais da mocidade, um brotinho.  

- Hummmmmm!

- Não quero rasgar seda, mas adoro ver uma mulher madura e bonita como você com esse astral lá em cima. Fico encantada.

- Fica?

- Enxutérrima! Por cima é muito inteligente, viva, em movimento. Penso que esse é o perfil que precisa ter a nova mulher do Brasil.

- Continua sendo muito gentil comigo.

– Tem charme, querida. Gosto de te ver arrumada de tal modo: de jeans com camisa xadrez e um casaquinho leve por cima.

- Sério?

- Com esse look, arrasa. Jovialidade na dose certa para seduzir qualquer um, viu?

- Assim eu fico convencida, Nathalie.

- Pode ficar.

- Não visto além do básico. Vale para o dia e para a noite. Estou sempre com tênis, rasteirinha ou sandálias de salto alto, desde que sejam confortáveis. Estou sempre de bem com e minha imagem e meus dois pés firmes no chão, porque sei do que gosto e do que não me agrada.

- De qualquer jeito, você fica bem. Elegância discreta, mas fashion total.

A pintora toma um pouco de vinho. E felicita:

 - Mocinha, continua me jogando para cima que eu gosto, viu? Massageia o ego.

- Ouço falar que as verdadeiras feições de uma mulher se tornam visíveis depois dos quarenta anos. Morana, você é a prova disso.

- Menos.

- Você é a mulher mais chique, mais fascinante..., a mais bela, a mais inteligente que já conheci em toda minha vida.

- Meu Deus! Não estou com essa bola toda não, já ultrapassei a barreira dos 40 anos. Portanto são quarenta anos para o meu rosto, quarenta anos para meu corpo, que já acena para a meia idade.

- Sim, e daí?

- Ufa! Nessa corrida da vida tudo passa tão rápido que, quando a gente se dá conta, o tempo já passou e a velhice começa a entrar em cena.

Risos. Nathalie:

- Mas com um corpo muito parecido como o que tinha aos 20, com tudo em cima, posso apostar. Está em forma, uma gata! Até parece que o tempo não passou para você, continua linda.

- Tento. De qualquer forma, agradeço.

- Uma vez uma amiga me disse que a grande sacada é saber aproveitar o seu tempo para fazer coisas que voce realmente acredita. Isso distiguirá as suas escolhas e, consequentemente, a sua história. Isso ficou na minha cabeça.

- É por aí, sim. Nessa corrida da vida tudo passa tão ligeiro que, como disse, quando a gente se dá conta, o tempo passou e já estamos vivendo a mulheridade ao pé da letra.

- Mulheridade?

Antes que a pintora se manifestasse, a jovem cantarola um trecho da uma música de Roberto Carlos: Sorriso bonito/Olhar de quem sabe/Um pouco da vida/Conhece o amor/E quem sabe uma dor/ Guardada, escondida...

Morana ri alegre, afiançando:

 - É verdade.

- Qual o segredo?

- Não tem mistério, além de exercício físico. Educação alimentar, sobre tudo.  Apenas coloco no prato aquilo que faz bem para minha saúde e provoca bem estar. Alho?! Adoro alho. Na comida do dia a dia, rara aquela refeição em que o alho não deve dar o seu ar da graça.

- Dizem que é alimento afrodisíaco. Seu cheiro aguça o sentido, e estimula o apetite sexual, verdade?

Risos. Morana:

- Poder ser. Dizem que o alho também ajuda na conservação da suavidade das mãos, essa coisa que conta muito na avaliação das mulheres.  Pelo sim pelo não, adoro alho na comida.

- Por isso tem essa pele perfeita, de menina. Olha só! – enaltece a amiga.

 – Hidrato bebendo muito água, sem dispensar uns creminhos para o corpo, claro, para deixar a pele protegida e sequinha. Se não se cuidar a lei da gravidade despenca tudo. Água, querida, ajuda a eliminar as toxinas no sangue, garantindo pele macia e brilhante para nós todos. Sabia disso?

- Também tomo muita água. Cremes não uso, acredita?

         - Ah, a juventude! Aí é fácil para não usar a maquilagem, já dizia Clarice Lispector. Porque a alegria da jovialidade é mais importante do que tubos de creme hidratantes.

         Nathalie muda de posição na poltrona. Endireita a cabeça, cruza os dedos e sobre eles pousa o queixo, afirmando numa voz afetuosa:

- Por isso que é tão linda assim. Extremamente, sedutora.

- Menos, Nathalie, menos.

- Sempre ouvi falar que as verdadeiras feições de uma mulher se tornam visíveis depois dos quarenta anos. Idade da loba, querida! Você é a prova disso, a beleza que resiste.

Pausa. Morana:

 - A beleza não tem idade. Como também não há limites para a sedução que pode ir até os 100 anos, porque nós nunca vamos perder o direito de amar, muito menos uma quarentona como eu. Tudo vai depender de quem se é, do que se quer.

- Claro, claro.

- A vida é como um sonho que se reinventa a cada hora, cada dia, cada semana. Enfim, a cada momento, acumulo a vivência para contar minha história. Capisce?

- Fico imaginando se chego lá tão bem assim, com esse charme todo?

A pintora, depois de uma risada:

- Claro que sim.

- Espero.

- Mas, nem tudo são flores. Nessa fase começamos a sentir que o futuro, pouco a pouco, vem sendo confiscado de nós. Veja minhas mãos, mesmo com os cuidados que tomo, elas já começam a dar sinais numa área sensível à passagem do tempo. Não tem jeito, é a Lei da Gravidade. Uma batalha! Sofremos, mas...

- Ô, boba, preocupa não.

- Apesar de alguns percalços no caminho, não posso reclamar. Deus tem sido bom para mim, sim. Nos trinta, a barra pesou um pouco, mas o saldo final foi positivo. Agora que entrei nos ‘enta’, nada a reclamar.

- Bom ouvir isso.

- Mulheres perspicazes amadurecem com mais sabedoria, pode crer. Depois de certa idade a gente fica mais compreensiva, passando a dominar a arte da visão de longo prazo muito melhor. Até mais do que os homens.

- Posso garantir que sim.

Morana em tom firme:

- Odeio ouvir que, para ter um envelhecimento saudável, seja necessário perpetuar a juventude. Nada disso. Mulher nenhuma, para ser considerada bela e produtiva, precisa ser condenada à juventude eterna, precisa?

- Não.

- Assim que tem que ser. Estou convicta de que as pessoas mais velhas poderão ser reconhecidas, publicamente, como pessoas mais velhas, sem que as suas qualidades sejam desmerecidas.

         Pausa. Nathalie:

- Por falar nisso, leu a boa notícia que deu na revista Viver dessa semana?

- Qual?

- Mostra que vida sexual ativa é o caminho para a fonte de juventude. Leu?

- Ah, sim. Li.

- Publica um estudo do Royal Edinburgh Hospital, na Inglaterra que afirma que quem faz sexo três vezes por semana, aparenta ter 5 a 7 anos a menos.

- Pode ser. O efeito se dá pela liberação de neurotransmissores como endorfina e serotonina.

- Bom, hein?

- Nathalie, ainda não dá para dizer se esses hormônios estejam diretamente ligados ao rejuvenescimento, mas, indiretamente, aumentam o bem-estar e diminuem o estresse. Além de queimar calorias e acelerar a circulação do sangue, o sexo é o gatilho para aumentar a produção de GH, hormônio do crescimento responsável pela elasticidade da pele.

- Então faz sentido?

- Tudo indica que sim. Durante a crise do meu casamento, cheguei a ter uns quilinhos a mais, provocados pelo longo jejum sexual.

- Ô, dó!

- É natural.

A jovem sorve lentamente o restinho de vinho da taça, franze a testa, e pergunta:

- Tem parentes na cidade?

- Não. Só no interior. Toda minha família mora lá.

- Legal.

- Isso é a grande chance que tenho para manter estreita relação com minha cidade, que adoro.

- Pois eu nasci aqui. Gostaria de ter crescido numa cidade menor.

- Tudo de bom.

Pausa. Morana.

- A gente sai para estudar e não volta nunca para residir de novo, principalmente no meu caso que fiz Belas Artes na Capital e, aqui fiquei em busca de um sonho, ser pintora.

- Não se sente só de família?

- Com o tempo aprendi a viver bem comigo mesma. Tenho amigos e depois, a arte é uma excelente companhia. Pintar me distrai e, à noite, ajuda a trazer o sono. Quanto não faço isso, tenho que recorrer a um comprimidinho para dormir.

- Então gosta de morar sozinha?

- Nem sempre, às vezes sinto falta de alguém que divida o espaço comigo, uma pessoa que abra a porta e entre. Quer dizer: alguém morando comigo, um filho pelo menos. Mas o que fazer? Engrosso os números das pesquisas que revelam o porcentual de adultos sozinhos no Brasil.

- Háháhá!

- Sabe que a ala das mulheres ganha dos homens?

- Não acredito!?

- Pode acreditar. Depois dos quarenta, a taxa de isolamento entre as mulheres é maior.

- Mas, pelo jeito tira isso de letra.

- Tento.

- Parabéns por ser assim. Eu te admiro, gosto do seu jeito, define bem o approach que se quer dar ao seu trajeto de vida.

Approach?

– É isso. Nome tirado do inglês para definir certos comportamentos. O termo quer dizer o jeito original de alguém estar em voga, longe das manias da onda. Entendeu?

- Bem, acho que sim.

- É isso.

- Meus Deus, pelo que vejo tenho que me familiarizar com os termos usados pelos jovens de hoje, não é mesmo?

Nathalie faz sinal com as mãos como se quisesse dizer que sim. Cheia de curiosidades:

- Morana, você tem namorado?

- Namorado, namorado não.

- Então me conta: está sozinha porque quer?

- Sei lá. Por enquanto estou naquela de Camões que dizia que jamais haverá amor novo se você não reavaliar os amores velhos.

- Só pode. Bela como é...

- Até sei que deve ter algum homem sério sobrando em algum lugar. Basta prestar atenção, não é mesmo?

Risos. Nathalie:

- Sai para se divertir na night?

- Não tenho essa animação toda. Ultimamente, pela falta de motivação, ando tão quietinha! Mas, não se preocupe, consigo ficar bem sozinha.

- É?

- Quando a estricção dá sinais, aumento as caminhadas no Parque, medito um pouco mais para melhorar o astral. Tem sido essa minha rotina, meio longe dos homens.

         - Não acha que precisa badalar mais?

- Às vezes dou um giro pelos shoppings. Adoro ver os arranjos nas vitrines! Toda terça-feira, quando não leciono na parte da tarde, vou à Biblioteca Pública pesquisar livros de arte.

Pausa. Nathalie com um olhar quente, brinca:

- Parabéns. Parabéns. Pelo que vejo isso ajuda a manter a sensualidade em alta de uma mulher madura.

- Acha?

- Sim.

- Fora isso, Nathalie, quando não estou dando aula na Escola de Belas Artes me absolvo diante do cavalete pintando. Ah, de quinze em quinze dias passo o sábado como voluntária num hospital de crianças, ensinando a meninada a mexer com as tintas.

- Que legal!

- Pesquisas revelam que quem presta serviços voluntários costuma ter menor taxa de mortalidade, maior habilidade funcional e menor índice de depressão ao envelhecer.

- Mesmo?

- Por aí. Quem faz o bem para os outros acaba ajudando a si mesmo.

- Ótimo.

- Leva-me um dia com você?

- Com prazer.

- Então conte comigo. Vou adorar.

Depois de tomar mais pouco de vinho, Nathalie:

- Nunca quis ter filhos?

- É o sonho de toda mulher. Tenho senso maternal aguçado, desde menina. Mas, as crias até hoje não pintaram, acho que sou estéril. Um dia, tomo coragem, faço tratamento e vou ter uma criança, mesmo que seja produção independente. Filhos completam a gente, não é mesmo?

- Claro.

- Imagino que se tivesse um em casa, gastaria meus fins de semana brincando com ele.  Aí, sim, teria companhia para comer meus brigadeiros.

Risos. Nathalie revela:

- Também amo brigadeiro! Sou chocólatra, não nego.

- Quem não é?

- Ninguém, ‘né?

- Mas, mas podemos comer sem culpa. A ciência é que diz.

- Que bom.

- O chocolate contém substâncias que tornam a vida mais saudável. Substâncias que fazem bem ao cérebro, que ajudam a emagrecer além de proteger a pele contra os efeitos da radiação ultravioleta. E tem mais: não provoca espinhas.

- Êba! - expressa com entusiasmo a jovem.

- Pode comer e dormir tranquila.

- Dormir já é bom, dormir com o gostinho de um chocolate no céu da boca, então, é a glória.

Nesse momento, Nathalie bota as mãos sobre as curvas articuladas de sua cintura, e passa a observar as linhas do corpo da amiga. Peitos levemente erguidos, redondos e firmes, amadureciam em perfeita harmonia com as feições de uma mulher de pernas longas e bem torneadas. Depois de contemplar por um instante o perfil de Morana, quis saber:

- Não curte nem os barzinhos?

- Mais ou menos.

- É bom sair, Belo Horizonte tem muito que ver.

- Ã-Hã.

- Os especialistas explicam que ficar sozinha é prejudicial não só para o humor e a autoestima das pessoas, como também é uma ameaça à saúde mental. Para eles, uma vida social recheada de interações com outras pessoas dá o estimulo necessário para que o cérebro se mantenha ativo. Portanto, nada de ficar enterrada dentro de casa, muito menos dentro de si mesma.

- Pode ser.

- Dar uma paquerinha de vez em quando também massageia o ego, levanta o astral.

- Háháhá...

- Ou não gosta de ser assediada?

- Sempre tive dificuldades para enfrentar uma cantada. É um fato. Ainda sou daquelas que pensam que se eu transar com um cara na primeira noite, ele vai achar que eu não sirvo para namorar. Em situações assim, dou sempre um jeito de mudar o rumo da conversa.

- Sério?

- Na verdade, eu trago um temperamento que ainda cultiva certo acanho. Sinto muita vergonha de tirar a roupa e mostrar a intimidade nos primeiros encontros com um rapaz. Eu jamais exporia alguma coisa de minha intimidade nessas redes de relacionamento – confessa a pintora.

- Olha!

- Evito o quanto posso sair de casa. Meu universo cada dia mais se resume ao individualismo, não que eu queira, claro. É a engrenagem que segrega a mulher na medida em que começa a envelhecer. De vez em quando, eu animo e saio com as amigas para curtir uma danceteria, coisa rara. Até porque não me divirto muito, pois sinto que a grande parte dos homens de hoje não está com nada. Os homens vacilam muito, não confio neles. No mais, eu sou uma pessoa mais discreta, pouco festeira e pacata.

- Seu jeito de ser, entendo.

- Nada me deixa mais feliz do que ficar quieta em casa, meditando para pintar ou escrever. De vez em quando, entre uma e outra xícara de chá, eu rabisco um poema ou uma crônica, onde degusto mais o sentido da minha existência.

- Legal.

- Um dia mostro a você, tenho uma pasta.

- Quero ler.

- Criar é uma experiência impressionante, tanto a de pintar, como a de escrever. Não planejo, deixo as imagens ou as palavras virem. Assim nasce uma obra – justifica Morana. - A arte, Nathalie, sempre fala mais alto, está dentro da gente.

- Maravilha

- Penso que meu Narciso é para o interior.

- Como assim?

- Sei lá. Trabalho bem a beleza da minha parte interna.

Pausa. Nathalie.

- Nem um cineminha?

- Vou pouco. De vez em quando procuro assistir a uma boa comédia para entreter. Nada como o calor do bom-humor, não é?

- Também gosto. Que tal a gente procurar nos jornais se há alguma boa fita em cartaz na cidade?

- É um convite?

- Sim.

- Obrigada. Eu topo.

- Então, Morana, qualquer dia desses nós vamos rir juntas, combinado?

- Oba! – alegra a pintora.

- Posso marcar a data?

- Pode, sim. Depois me liga, avisando.

Nathalie alegre, enrodilhada na poltrona, puxa mais almofadas para junto de si. E conta:

- Ah, ontem fui assistir Flores Raras, de Bruno Barreto. Filme estrelado pela atriz australiana Miranda Otto e por Glória Pires. Adorei.

- Sobre o caso de amor da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop com a paisagista brasileira Lota de Assis Soares, correto?

- Ã-Hã! O grande interesse por sua vida pessoal vem provocando releitura póstuma à sua obra. A fita retrata detalhes da vida íntima de Bishop, em plenos anos 1950. Achei muito legal, principalmente, pela pesquisa de época, rica em detalhes e recursos gráficos de primeira linha.

- Beleza!

- Elizabeth, enquanto viveu no Brasil, manteve uma postura diferente sobre a sexualidade feminina. Livre de qualquer sentimento de culpa e da velha pecha de pecado, ela representava uma trajetória de vida malvista, malfalada pela velha tradição da família brasileira, mas tocou o barco para frente sem se intimidar por longos anos – explica Nathalie.

- Conheço a história.

- Bishop foi uma espécie de porta-voz de uma nova mulher que passou a encarar a sexualidade sem culpa, medo ou preconceito.

- Deve ser um bom filme.

- Glória Pires é dez. A atriz tirou de letra a interpretação da arquiteta, que usava roupas masculinas, falava palavrão e nunca escondeu suas amantes de ninguém. Nem delas próprias, que muitas vezes conviviam em um triangulo amoroso.

- Meu Deus! – desassossega Morana.

– Querida, hoje não há nada que interesse ao homem e não à mulher também. Os gêneros não mais estão aprisionados em estereótipos como “homem não chora e só a mulher pode ser emotiva”. Com o fim dessa diferenciação, a escolha amorosa deixa de passar necessariamente pelo sexo oposto, não acha?

 – Assunto que ainda não digeri bem, Nathalie. Desse jeito eu acredito que o lesbianismo só tende a aumentar.

- Homofóbica?

- Não. Deus me livre! Penso que cada um faz o que achar melhor com o seu corpo. Só não pode permitir o desrespeito.

- Isso mesmo. O lado positivo dessa moda é que a curiosidade pode ajudar a dissolver um velho tabu, não acha?

- Talvez. O que não concordo mesmo é fazer do sexo uma bagunça geral. Se você extrapola, acaba perdendo o significado do amor.

- Não é só, Morana. Para estimular mais ainda a prática sexual entre elas, dar o toque de fantasia e uma conotação festiva a esses encontros, pode-se recorrer aos ‘sex shops’. Casas que deixaram o submundo e estão cada vez mais visíveis nas esquinas das grandes cidades. Um sucesso! Frequência garantida, principalmente, por boa parte da juventude feminina que, todo dia, amanhece inquieta para interagir com o mundo moderno de hoje, cheio de expectativas.

 - Pelo sim pelo não chegou a hora e a vez do sexo livre, cada um na sua – admite a pintora.

Pausa. Nathalie curiosa:

- Então, Morana, por favor, me tira uma dúvida.  Para você qual a diferença entre erotismo e pornografia?

– Não sabe?

- Confundo um pouco as coisas.

- É como o joio do trigo. O erotismo é algo velado em relação à pornografia, que depende de uma exibição muito mais carnal, mais corpo.

– Explique melhor.

 – Na pornografia a mulher, ou o homem, não passa de objeto para provocar hiperexcitação nas pessoas obcecadas por sexo. O erotismo centra mais na arte de conquistar o corpo de alguém pela arte de se expor.

– Sim.

- Um olhar pode ser erótico, desde que seja com um olhar cheio de promessas. Bem como também um perfume, um jeito de mexer o corpo ou mostrar o tornozelo. O erotismo, querida, é misterioso e mágico ao mesmo tempo. Nada muito explícito, entende?

- Maravilha.

- Para a escritora Anais Nin, o erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensáveis como a poesia.

- Eu, por exemplo, não tenho pudor com o meu corpo. Acho bonito ficar só calcinha e sutian em casa – revela Nathalie. - Isso é pornô ou erotismo?

- Erotismo.

Sem desviar da pintora os olhos claros, Nathalie:

- Posso fazer uma pergunta bastante íntima?

- Quer saber o quê?

- Você dá prazer si mesma, pratica hand job?

- Meu Deus, que pergunta?

- Apenas uma curiosidade.

- Uau... Pelo jeito anda lendo muitas revistinhas ou contos eróticos?

- Posso dizer que sim.

- Bem, toda mulher procura e descobre novas formas de prazer, é natural para ficar numa boa. Não é um bicho de sete cabeças.

- Dizem os entendidos que nove em cada dez mulheres buscam prazer solitário, prazer até pouco tempo experimentado mais pelos homens. Acredita?

- Acredito. Essa transformação reflete a própria mudança no universo feminino. Mas, tem muita gente que diz que não faz isso.

- É algo errado, Morana?

- Não. Tocar em si mesmo, estimular prazer no próprio corpo faz bem para a saúde, a pessoa goza sem sofrimento. É bom.

Nathalie com um sorriso sapeca nos lábios.  

- É muito BOOOOM!!! -  expressa com malícia.

- Mas tem que ser moderada, caso contrário cria dependência. Torna vício..., sempre dá vontade de fazer mais, viu?

- Claro.

- Aí a pessoa começa a se tocar em qualquer lugar, independentemente de ser um local apropriado.  Nesse caso seria interessante buscar ajuda de um profissional da saúde.

- Posso confessar uma coisa?

- Pode.

- Ha pouco tempo, comprei o Butterfly.

- Que isso?

- Uma borboletinha, não invasiva, que vibra para fazer estimulação critoriana.

- Nunca ouvi falar.

- Nada mau como fantasia, gostei. É muito prazeroso.

- Sei.

- Diferente de meus dedinhos, diferente de objetos como celular, desodorante roll on, chuveirinho, ursinho de pelúcia, banheira de hidromassagem. Como também de almofadas, frutas, legumes, ou vibrador pirotécnico que roda.

- Entendida do assunto, hein?

Risos. Nathalie entusiasmada:

- Viva as mulheres que sabem dar prazer a si mesmo!!!

- Nem sei o que dizer.

- Bem, bem... Voltando ao filme, Flores Raras é ótimo, precisa ver.

- Ah, quero sim! – confirma a pintora.

- Vai gostar.

- Acho que sim. Não perco.

- Elas morrem de amores uma pela outra.

- Legal.

Nathalie em tom suspirado:

- Posso te perguntar uma última coisa?

- Sim.

- Não tem mesmo namorado?

- Bem...

- Alguma coisa errada na pergunta?

- Não há nada de errado em se perguntar uma coisa dessas a uma amiga. Errado seria não perguntar.

- Talvez. É difícil entender que uma mulher tão especial não esteja envolvida com alguém.

- Preciso explicar?

- Bem... Se não quer falar, tudo bem.

- Se não ficar sentida comigo, prefiro.

- Lógico que não. Mas, no fundo, no fundo parece ser uma mulher de alma apaixonada.

Pausa. Morana franze a testa.

- Alma não. O corpo, talvez.

- Hein?

- Bem, Nathalie, se quer mesmo saber, há um carinha que saímos de vez em quando.

- Olha!

- Tenho uma ligação muito doida com ele. É muito divertido, quando aparece rimos à beça.

- Casado?

- Para variar, sim. Mas é um cara com quem me dou bem na cama, sem envolvimento sentimento algum.

- Assim, sem compromisso sério!  Do tipo pretê ficante, não é?

- Pretê ficante?!...

- Isso mesmo, seu peguete oficial. Aquele tipo de homem que pensa: porque comprar a vaca, se você pode beber o leite de graça. Conheço esse lance, muito comum hoje em dia.

- Não me incomoda. Quando ele liga, e não estou a fim de sair, invento uma desculpa qualquer e tudo fica bem. Assim, levo o namoro de uma forma leve e espontânea. E tenho a capacidade de perceber se estou sendo usada mais do que usando.

- Massa! Em toda relação há uma troca, tanto de favores, como de obrigações, mesmo que entre aspas.

- Por aí.

Pausa. Nathalie.

- Por que não tem um filho com ele?

- Está maluca?

- Uai, você não está aberta a conseguir um filho independente?

- É diferente. Prefiro recorrer a um banco de espermas, ou transar com um solteiro que não está disposto a se comprometer, muito menos que me alimente aquela expectativa de perpetuar o relacionamento, através de um filho. Não me dei bem no modelo tradicional de casamento, aquele que oprime, usurpa, dá direito à herança e divisão de bens materiais. Isso eu não quero nunca mais.

- Melhor assim, Morana.

- Claro. E depois seria complicado ter um filho com um homem casado que não pensa em se separar da esposa. Amanhã pode dar problemas. Com ele vivo sem idealizar.

- Então não é nada sério?

- Claro que não. Depois de alguns tropeços, passei a preferir uma relação mais leve, cada um na sua e com uma certeza na cabeça: amor é uma substância meio utópica, sem tantas idealizações.

- Bem, se sua vida continuar ativa, interessante e os encontros, mesmo que não sejam sequenciais, ainda assim a deixarem satisfeita deve continuar nessa relação. O tempo corre a seu favor.

- Claro, claro. Hoje em dia, não quero homem nenhum pegando no meu pé.

- Não?

- Não. Numa relação, quando a história começa a ter vírgulas demais é porque está chegando a hora de colocar ponto final.

Risos. Nathalie com os olhos brilhantes:

- Bom ouvir isso.

- Dentro do conceito de sabedoria erótica, é inteligente quem está junto pelo prazer, não pela necessidade de ter alguém para se sentir seguro – define Morana, convicta.

Risos. A jovem troça:

- Amiga, então dê graças a Deus. Esse aí é o tipo da moda. Pensando bem, para nós mulheres que não estamos preocupadas com o casamento, não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma linguiça de pouco mais de 100 gramos, como disse o cronista. Ou vale?

A pintora leva as mãos aos lábios, contendo o riso. Depois reforça:

- Sou realista, querida. E você, Nathalie, tem namorado?

- Posso dizer que tenho meus rolinhos.

- Rolinhos?

- Nada sério também. Coisa da juventude de hoje que transa adoidada, sem nenhum compromisso sentimental.

Risos. Morana:

- Não acha que a rapaziada anda promovendo muita bandalheira, tudo recheado de muita pornografia e, extremamente, mais arriscada?

– Acho.

 – Está nessa?

 – Bem. Estou mais naquela de que um amor vai curando o outro, enquanto não encontro aquele que não vai me machucar. Minha bússola já aponta pela causa do amor e da liberdade consciente.

- Olha!

- Cada dia mais eu admiro a onda dos Streight.

 – Que isso?

 – Ser contra o sexo promíscuo, exagero no consumo de bebidas alcoólicas, de droga, de carne vermelha. Sexo para mim, Morana, agora é coisa mais séria e precisa ser vivida a dois. Tem que ser passaporte para a entrada no paraíso – brinca a jovem com um largo sorriso no rosto.

– Penso que ando meio ultrapassada, meio démodé, como diriam os franceses. Portanto, não sei se entendi bem o que quis dizer. Bem, deixa para lá...



 
 * FBN© 2013 * FLORES RARAS  – Cap II de  Entre Elas -  Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google -   Ilust.: Imagens Internet  – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/02ii-flores-raras.html?zx=be79246f858628c8
 
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