Morana abre mais o sorriso:
- Ontem fui dormir tarde.
Como disse, eu dava os retoques finais no seu quadro.
- Maravilha.
- Vez ou outra debruçava na janela para contemplar
o infinito e espantar o sono. Adoro fazer isso em noites de céu limpo, ficar
admirando o céu, enquanto respiro o ar que vem do Parque. É lindo, precisa ver!
As estrelas assumem outro brilho.
- Ai, que inveja!
- Pode ter mesmo. É tudo
muito bonito, visto daquela varanda com vista para uma paisagem verde desse
tamanho. A cidade, então...
- Pensava em quê?
- Em tudo. Até na vida meio
enfadonha de uma mulher quase sozinha no mundo. Sabe como é: aquela puta sensação de vazio
que, às vezes, perturba a gente. Arre! De vez em quando essa paranoia me pega,
acredita?
- Meu Deus! Para mim vivia
num mar de rosas com esse jeitinho Zen de encarar as coisas.
- Não é bem assim, Nathalie.
Há anos venho trabalhando para criar uma relação afetiva estável comigo mesma.
Não é fácil. Invisto na atividade intelectual e cuido da saúde no geral. Tudo
ajuda, mas...
- Não basta, ‘né?
- Não. Ainda bem que tenho
essa imensa área verde na frente do meu apartamento para desistressar, quando
preciso. Um verdadeiro oásis no meio de
uma selva de pedra, não é mesmo? O cheiro de mato refresca a rotina da minha
casa. Me relaxa. Me coloca no centro de novo, reequilibra.
- Privilégio de poucos.
- Ando lá dentro até cansar, até soar.
Gosto de respirar a natureza com todo o seu esplendor, distensionar os músculos
e aprimorar a coordenação motora. Pelo menos três vezes por semana faço esse
tipo de exercício.
- Deve ser bom mesmo!
- Muito bom, Nathalie. Aproveito bem os momentos ao ar livre no
verde de uma área com bastante verde debaixo do meu nariz, onde a natureza
empresta suas cores para tornar a arte de viver mais rica. Depois de uma
caminhada dentro do Parque Municipal respiro melhor, fico bem mais disposta,
mais light.
- Superbacana, ‘né?
- Sim, sim. No seu livro Devaneios do
Caminhante Solitário, Rousseau escreve que
existem poucos prazeres comparáveis a uma caminhada pelo campo. Desafio
pesado para o corpo, mas alimento leve para a alma.
- Sem dúvida.
- Tem mais: quando as dificuldades me
acabrunham de forma agressiva aqui fora, é lá dentro que faço o desbloqueio
emocional, contanto borboletas ao som de uma majestosa barulheira de diferentes
pássaros que cantam ao mesmo tempo.
- Ai, que inveja!
- Como também não há espaço melhor para manter um bom diálogo
interior, para a gente tirar o pé do acelerador e dar colo a si mesma,
principalmente, de manhãzinha. Lá dentro, sentada num banco ensolarado, me refúgio
diante de uma folha de papel em branco, rabiscando qualquer coisa. Quando não
acontece nada, pelo menos passei um bom momento exercitando o meu desenho.
- Muito legal.
- Não tem melhor hora para recompor
sonhos esquecidos, cutucar nosso arquivo mental com suas lembranças, não é
mesmo?
- Acho que não.
- Sem falar que, no Parque, a sensação é de estar bem longe do
burburinho da cidade, porque o sentimento que existe ali é único, e gosto de
separar isso do resto – justifica Morana.
- Ã-Hã!
- Ali está minha origem, querida. Nasci
no descampado de uma cidadezinha, cercada de verde.
- Bom ouvir isso.
- Nathalie, eu não sou de malhar
em academia. Nunca fui. Pegar pesado não é comigo. Gosto mesmo é de andar.
Ando, ando sempre que posso. Desse jeito, penso que estou pegando leve com meu
corpo, enquanto levo à alma tudo de bom que meus olhos enxergam por onde passo.
Mudo sempre de trajeto, mesmo nas trilhas do Parque, claro.
Nathalie aquiesce com a cabeça,
afirmando:
- Também caminho muito,
Morana. Tem dia que corto boa parte da cidade a pé.
- Parabéns. Sinal que mira no futuro,
nota 10. A endorfina que produzimos nessa hora é uma substância que, além de
lubrificar e tonificar nossas juntas, produz no cérebro uma gostosa sensação de
prazer e alegria.
- Sério?
- Sem falar que, de acordo com a
ciência, a falta de exercícios físicos promove a redução progressiva da massa
muscular, a sarcopenia. Também da massa óssea. Sabia disso?
- Por alto.
- Nossa saúde está em
nossos pés, querida. Caminhada de uma hora por dia, aliada a uma dieta
equilibrada, é tudo que precisamos para viver bem até o fim.
- Claro!
- Por isso mesmo só
faço uma refeição por dia, jantar nem pensar. Não quero que a comida tenha
tanto espaço em minha mente.
- Está certa.
- Isso me deixa
contente, Nathalie. Quando estamos contentes, podemos fazer com que todos ficam
felizes ao nosso lado. Nosso bom astral funciona como se fosse uma onda de boas
coisas que transmitimos e a temos de volta, através do estado emocional positivo
dos outros. Assim que funciona, viu?
- Pelo visto, você entende
bem desse assunto.
- Tento. Como o
conhecimento realmente não tem fronteiras, e hoje está acessível a todos os
interessados em aprender e se desenvolver intelectualmente, eu leio muito sobre
a saúde da mulher. A idade vai chegando, sabe como é.
- Por isso mesmo, também
malho em academia. Pego pesado na musculação acreditando que, quanto maior a
quantidade de exercícios, melhor para a saúde.
Pausa. Morana:
- Não sei se é por aí. Ficar
‘sarada’ virou moda.
- É a onda, sim. A moçada
curte muito.
- Espelho, espelho meu!... –
brinca a pintora.
- Muita gente quer moldar o
corpo a qualquer custo, estimulada por um mundo que condena, sem piedade, jovens
que tem uns quilinhos a mais.
- Não que seja contra, mas
acho que é judiar demais do nosso corpo, alimentando ideais de beleza como
estratégia para perder peso. Não podemos aceitar a imposição da bela imagem de
jeito nenhum. Extrapolar não é legal.
- Talvez.
- Não vai pensar que
recrimino as academias, só acho que o exagero não faz bem. Todo cuidado é pouco
nessa prisão a padrão de beleza – avalia a pintora.
- Claro. Claro.
Pausa. Morana:
- Falando assim, até parece
que estou me sentindo uma velha chata, não é mesmo?
- Nada disso.
- Também não sou uma garota
como você.
- Sua boba, não precisa ter
inveja, você tem um corpo de mocinha. Bonita desse jeito ainda vai curtir
muitas e muitas emoções pela frente.
- Será?
- Tem silhueta de dar
inveja a qualquer dondoca por aí. Sem falar de um rosto lindo, adocicado, que
ainda conserva os sinais da mocidade, um brotinho.
- Hummmmmm!
- Não quero rasgar seda,
mas adoro ver uma mulher madura e bonita como você com esse astral lá em cima.
Fico encantada.
- Fica?
- Enxutérrima! Por cima é muito
inteligente, viva, em movimento. Penso que esse é o perfil que precisa ter a
nova mulher do Brasil.
- Continua sendo muito gentil
comigo.
– Tem charme, querida. Gosto
de te ver arrumada de tal modo: de
jeans com camisa xadrez e um casaquinho leve por cima.
- Sério?
- Com esse look, arrasa. Jovialidade na dose certa
para seduzir qualquer um, viu?
- Assim eu fico
convencida, Nathalie.
- Pode ficar.
- Não visto além do básico. Vale para o dia
e para a noite. Estou sempre com tênis, rasteirinha ou sandálias de salto alto,
desde que sejam confortáveis. Estou sempre de bem com e minha imagem e meus
dois pés firmes no chão, porque sei do que gosto e do que não me agrada.
- De qualquer jeito, você fica bem. Elegância
discreta, mas fashion total.
A pintora toma um pouco de vinho. E
felicita:
- Mocinha, continua me jogando para cima que
eu gosto, viu? Massageia o ego.
- Ouço falar que as
verdadeiras feições de uma mulher se tornam visíveis depois dos quarenta anos.
Morana, você é a prova disso.
- Menos.
- Você é a mulher mais
chique, mais fascinante..., a mais bela, a mais inteligente que já conheci em
toda minha vida.
- Meu Deus! Não estou com essa bola toda
não, já ultrapassei a barreira dos 40 anos. Portanto são quarenta anos para o
meu rosto, quarenta anos para meu corpo, que já acena para a meia idade.
- Sim, e daí?
- Ufa! Nessa corrida da
vida tudo passa tão rápido que, quando a gente se dá conta, o tempo já passou e
a velhice começa a entrar em cena.
Risos. Nathalie:
- Mas com um corpo muito
parecido como o que tinha aos 20, com tudo em cima, posso apostar. Está em
forma, uma gata! Até parece que o tempo não passou para você, continua linda.
- Tento. De
qualquer forma, agradeço.
- Uma
vez uma amiga me disse que a grande sacada é saber aproveitar o seu tempo para
fazer coisas que voce realmente acredita. Isso distiguirá as suas escolhas e,
consequentemente, a sua história. Isso ficou na minha cabeça.
- É por aí, sim. Nessa
corrida da vida tudo passa tão ligeiro que, como disse, quando a gente se dá
conta, o tempo passou e já estamos vivendo a mulheridade ao pé da letra.
- Mulheridade?
Antes que a pintora se
manifestasse, a jovem cantarola um trecho da uma música de Roberto Carlos: Sorriso bonito/Olhar de quem sabe/Um pouco da
vida/Conhece o amor/E quem sabe uma dor/ Guardada, escondida...
Morana ri alegre,
afiançando:
- É verdade.
- Qual o segredo?
- Não tem mistério, além de exercício
físico. Educação alimentar, sobre tudo.
Apenas coloco no prato aquilo que faz bem para minha saúde e provoca bem
estar. Alho?! Adoro alho. Na comida do dia a dia, rara aquela
refeição em que o alho não deve dar o seu ar da graça.
- Dizem que é alimento afrodisíaco. Seu cheiro aguça o
sentido, e estimula o apetite sexual, verdade?
Risos. Morana:
- Poder ser. Dizem que o alho também ajuda na conservação da
suavidade das mãos, essa coisa que conta muito na avaliação das mulheres. Pelo sim pelo não, adoro alho na comida.
- Por isso tem essa pele
perfeita, de menina. Olha só! – enaltece a amiga.
– Hidrato bebendo muito água, sem dispensar
uns creminhos para o corpo, claro, para deixar a pele protegida e sequinha. Se
não se cuidar a lei da gravidade despenca tudo. Água, querida, ajuda a eliminar
as toxinas no sangue, garantindo pele macia e brilhante para nós todos. Sabia
disso?
- Também tomo muita água.
Cremes não uso, acredita?
- Ah, a juventude! Aí é fácil para não usar a maquilagem, já
dizia Clarice Lispector. Porque a alegria
da jovialidade é mais importante do que tubos de creme hidratantes.
Nathalie muda de posição na poltrona. Endireita
a cabeça, cruza os dedos e sobre eles pousa o queixo, afirmando numa voz
afetuosa:
- Por isso que é tão linda assim. Extremamente,
sedutora.
- Menos, Nathalie, menos.
- Sempre ouvi falar que as
verdadeiras feições de uma mulher se tornam visíveis depois dos quarenta anos. Idade
da loba, querida! Você é a prova disso, a beleza que resiste.
Pausa. Morana:
- A beleza não tem
idade. Como também não há limites para a sedução que pode ir até os 100 anos,
porque nós nunca vamos perder o direito de amar, muito menos uma quarentona
como eu. Tudo vai depender de quem se é, do que se quer.
- Claro, claro.
- A vida é como um sonho
que se reinventa a cada hora, cada dia, cada semana. Enfim, a cada momento,
acumulo a vivência para contar minha história. Capisce?
- Fico imaginando se chego lá tão bem
assim, com esse charme todo?
A pintora, depois de uma
risada:
- Claro que sim.
- Espero.
- Mas, nem tudo são flores.
Nessa fase começamos a sentir que o futuro, pouco a pouco, vem sendo confiscado
de nós. Veja minhas mãos, mesmo com os cuidados que tomo, elas já começam a dar
sinais numa área sensível à passagem do tempo. Não tem jeito, é a Lei da Gravidade.
Uma batalha! Sofremos, mas...
- Ô, boba, preocupa não.
- Apesar de alguns
percalços no caminho, não posso reclamar. Deus tem sido bom para mim, sim. Nos
trinta, a barra pesou um pouco, mas o saldo final foi positivo. Agora que
entrei nos ‘enta’, nada a reclamar.
- Bom ouvir isso.
- Mulheres perspicazes
amadurecem com mais sabedoria, pode crer. Depois de certa idade a gente fica
mais compreensiva, passando a dominar a arte da visão de longo prazo muito
melhor. Até mais do que os homens.
- Posso garantir que sim.
Morana em tom firme:
- Odeio ouvir que, para ter
um envelhecimento saudável, seja necessário perpetuar a juventude. Nada disso.
Mulher nenhuma, para ser considerada bela e produtiva, precisa ser condenada à
juventude eterna, precisa?
- Não.
- Assim que tem que ser.
Estou convicta de que as pessoas mais velhas poderão ser reconhecidas,
publicamente, como pessoas mais velhas, sem que as suas qualidades sejam
desmerecidas.
Pausa. Nathalie:
- Por falar nisso, leu a boa notícia que
deu na revista Viver dessa semana?
- Qual?
- Mostra que vida sexual ativa é o
caminho para a fonte de juventude. Leu?
- Ah, sim. Li.
- Publica um estudo do Royal Edinburgh
Hospital, na Inglaterra que afirma que quem faz sexo três vezes por semana,
aparenta ter 5 a 7 anos a menos.
- Pode ser. O efeito se dá pela liberação
de neurotransmissores como endorfina e serotonina.
- Bom, hein?
- Nathalie, ainda não dá para dizer se
esses hormônios estejam diretamente ligados ao rejuvenescimento, mas,
indiretamente, aumentam o bem-estar e diminuem o estresse. Além de queimar
calorias e acelerar a circulação do sangue, o sexo é o gatilho para aumentar a
produção de GH, hormônio do crescimento responsável pela elasticidade da pele.
- Então faz sentido?
- Tudo indica que sim. Durante
a crise do meu casamento, cheguei a ter uns quilinhos a mais, provocados pelo
longo jejum sexual.
- Ô, dó!
- É natural.
A jovem sorve lentamente o
restinho de vinho da taça, franze a testa, e pergunta:
- Tem parentes na cidade?
- Não. Só no interior. Toda
minha família mora lá.
- Legal.
- Isso é a grande chance
que tenho para manter estreita relação com minha cidade, que adoro.
- Pois eu nasci aqui.
Gostaria de ter crescido numa cidade menor.
- Tudo de bom.
Pausa. Morana.
- A gente sai para estudar
e não volta nunca para residir de novo, principalmente no meu caso que fiz
Belas Artes na Capital e, aqui fiquei em busca de um sonho, ser pintora.
- Não se sente só de
família?
- Com o tempo aprendi a
viver bem comigo mesma. Tenho amigos e depois, a arte é uma excelente
companhia. Pintar me distrai e, à noite, ajuda a trazer o sono. Quanto não faço
isso, tenho que recorrer a um comprimidinho para dormir.
- Então gosta de morar
sozinha?
- Nem sempre, às vezes
sinto falta de alguém que divida o espaço comigo, uma pessoa que abra a porta e
entre. Quer dizer: alguém morando comigo, um filho pelo menos. Mas o que fazer?
Engrosso os números das pesquisas que revelam o porcentual de adultos sozinhos
no Brasil.
- Háháhá!
- Sabe que a ala das
mulheres ganha dos homens?
- Não acredito!?
- Pode acreditar. Depois
dos quarenta, a taxa de isolamento entre as mulheres é maior.
- Mas, pelo jeito tira isso
de letra.
- Tento.
- Parabéns por ser assim. Eu te
admiro, gosto do seu jeito, define
bem o approach que se quer dar ao seu
trajeto de vida.
– Approach?
– É isso. Nome tirado do
inglês para definir certos comportamentos. O termo quer dizer o jeito original
de alguém estar em voga, longe das manias da onda. Entendeu?
- Bem, acho que sim.
- É isso.
- Meus Deus, pelo que vejo tenho
que me familiarizar com os termos usados pelos jovens de hoje, não é mesmo?
Nathalie faz sinal com as
mãos como se quisesse dizer que sim. Cheia de curiosidades:
- Morana, você tem
namorado?
- Namorado, namorado não.
- Então me conta: está sozinha
porque quer?
- Sei lá. Por enquanto estou naquela de
Camões que dizia que jamais haverá amor
novo se você não reavaliar os amores velhos.
- Só pode. Bela como é...
- Até sei que deve ter
algum homem sério sobrando em algum lugar. Basta prestar atenção, não é mesmo?
Risos. Nathalie:
- Sai para se divertir na night?
- Não tenho essa animação
toda. Ultimamente, pela falta de motivação, ando tão quietinha! Mas, não
se preocupe, consigo ficar bem sozinha.
-
É?
- Quando a estricção dá
sinais, aumento as caminhadas no Parque, medito um pouco mais para melhorar o
astral. Tem sido essa minha rotina, meio longe dos homens.
-
Não acha que precisa badalar mais?
- Às vezes dou um giro
pelos shoppings. Adoro ver os
arranjos nas vitrines! Toda terça-feira, quando não leciono na parte da tarde,
vou à Biblioteca Pública pesquisar livros de arte.
Pausa. Nathalie com um
olhar quente, brinca:
- Parabéns. Parabéns. Pelo que vejo isso ajuda a manter a
sensualidade em alta de uma mulher madura.
- Acha?
- Sim.
- Fora isso, Nathalie,
quando não estou dando aula na Escola de Belas Artes me absolvo diante do
cavalete pintando. Ah, de quinze em quinze dias passo o sábado como voluntária
num hospital de crianças, ensinando a meninada a mexer com as tintas.
- Que legal!
-
Pesquisas revelam que quem presta serviços voluntários costuma ter menor taxa
de mortalidade, maior habilidade funcional e menor índice de depressão ao
envelhecer.
-
Mesmo?
-
Por aí. Quem faz o bem para os outros acaba ajudando a si mesmo.
-
Ótimo.
- Leva-me um dia com você?
- Com prazer.
- Então conte
comigo. Vou adorar.
Depois de tomar mais pouco
de vinho, Nathalie:
- Nunca quis ter filhos?
- É o sonho de toda mulher.
Tenho senso maternal aguçado, desde menina. Mas, as crias até hoje não
pintaram, acho que sou estéril. Um dia, tomo coragem, faço tratamento e vou ter
uma criança, mesmo que seja produção independente. Filhos completam a gente,
não é mesmo?
- Claro.
- Imagino que se tivesse um
em casa, gastaria meus fins de semana brincando com ele. Aí, sim, teria
companhia para comer meus brigadeiros.
Risos. Nathalie revela:
- Também amo brigadeiro!
Sou chocólatra, não nego.
- Quem não é?
- Ninguém, ‘né?
- Mas, mas podemos comer
sem culpa. A ciência é que diz.
- Que bom.
- O chocolate contém substâncias que
tornam a vida mais saudável. Substâncias que fazem bem ao cérebro, que ajudam a
emagrecer além de proteger a pele contra os efeitos da radiação ultravioleta. E
tem mais: não provoca espinhas.
- Êba! - expressa com
entusiasmo a jovem.
- Pode comer e dormir
tranquila.
- Dormir já é bom, dormir com o gostinho
de um chocolate no céu da boca, então, é a glória.
Nesse momento, Nathalie
bota as mãos sobre as curvas articuladas de sua cintura, e passa a observar as
linhas do corpo da amiga. Peitos levemente erguidos, redondos e firmes,
amadureciam em perfeita harmonia com as feições de uma mulher de pernas longas
e bem torneadas. Depois de contemplar por um instante o perfil de Morana, quis
saber:
- Não curte nem os barzinhos?
- Mais ou menos.
- É bom sair, Belo Horizonte tem muito
que ver.
- Ã-Hã.
- Os especialistas explicam
que ficar sozinha é prejudicial não só para o humor e a autoestima das pessoas,
como também é uma ameaça à saúde mental. Para eles, uma vida social recheada de
interações com outras pessoas dá o estimulo necessário para que o cérebro se
mantenha ativo. Portanto, nada de ficar enterrada dentro de casa, muito menos
dentro de si mesma.
- Pode ser.
- Dar uma paquerinha de vez
em quando também massageia o ego, levanta o astral.
- Háháhá...
- Ou não gosta de ser
assediada?
- Sempre tive dificuldades
para enfrentar uma cantada. É um fato. Ainda sou daquelas que pensam que se eu
transar com um cara na primeira noite, ele vai achar que eu não sirvo para
namorar. Em situações assim, dou sempre um jeito de mudar o rumo da conversa.
- Sério?
- Na verdade, eu trago um
temperamento que ainda cultiva certo acanho. Sinto muita vergonha de tirar a
roupa e mostrar a intimidade nos primeiros encontros com um rapaz. Eu jamais
exporia alguma coisa de minha intimidade nessas redes de relacionamento –
confessa a pintora.
- Olha!
- Evito o quanto posso sair de casa. Meu universo cada dia mais se resume ao individualismo,
não que eu queira, claro. É a engrenagem que segrega a mulher na medida em que
começa a envelhecer. De vez em quando, eu animo e saio com as amigas para curtir uma danceteria,
coisa rara. Até porque não me divirto muito, pois sinto que a grande parte dos
homens de hoje não está com nada. Os homens vacilam muito, não
confio neles. No mais, eu
sou uma pessoa mais discreta, pouco festeira e pacata.
-
Seu jeito de ser, entendo.
-
Nada me deixa mais feliz do que ficar quieta em casa, meditando para pintar ou escrever. De vez em quando, entre uma e outra xícara
de chá, eu rabisco um poema ou uma crônica, onde degusto mais o
sentido da minha existência.
-
Legal.
- Um dia mostro a você, tenho uma pasta.
- Quero ler.
- Criar é uma experiência
impressionante, tanto a de pintar, como a de escrever. Não planejo, deixo as
imagens ou as palavras virem. Assim nasce uma obra – justifica Morana. - A arte,
Nathalie, sempre fala mais alto, está dentro da gente.
- Maravilha
- Penso que meu Narciso é para o
interior.
-
Como assim?
-
Sei lá. Trabalho bem a beleza da minha parte interna.
Pausa.
Nathalie.
-
Nem um cineminha?
- Vou pouco. De vez em quando procuro
assistir a uma boa comédia para entreter. Nada como o calor do bom-humor, não
é?
-
Também gosto. Que tal a gente procurar nos jornais se há alguma boa fita em
cartaz na cidade?
- É um convite?
- Sim.
- Obrigada. Eu topo.
- Então, Morana, qualquer
dia desses nós vamos rir juntas, combinado?
- Oba! – alegra a pintora.
- Posso marcar a data?
- Pode, sim. Depois me liga,
avisando.
Nathalie alegre, enrodilhada na poltrona, puxa mais almofadas
para junto de si. E conta:
- Ah, ontem fui assistir Flores
Raras, de Bruno Barreto. Filme estrelado
pela atriz australiana Miranda Otto e por Glória Pires. Adorei.
- Sobre o caso de amor da
poetisa norte-americana Elizabeth Bishop com a paisagista brasileira Lota de
Assis Soares, correto?
- Ã-Hã! O grande interesse por sua vida
pessoal vem provocando releitura póstuma à sua obra. A fita retrata detalhes da
vida íntima de Bishop, em plenos anos 1950. Achei muito legal, principalmente,
pela pesquisa de época, rica em detalhes e recursos gráficos de primeira linha.
- Beleza!
- Elizabeth, enquanto viveu no Brasil,
manteve uma postura diferente sobre a sexualidade feminina. Livre de qualquer
sentimento de culpa e da velha pecha de pecado, ela representava uma trajetória
de vida malvista, malfalada pela velha tradição da família brasileira, mas tocou
o barco para frente sem se intimidar por longos anos – explica Nathalie.
- Conheço a história.
- Bishop foi uma espécie de porta-voz de
uma nova mulher que passou a encarar a sexualidade sem culpa, medo ou
preconceito.
- Deve ser um bom filme.
- Glória Pires é dez. A atriz tirou de
letra a interpretação da arquiteta, que usava roupas masculinas, falava
palavrão e nunca escondeu suas amantes de ninguém. Nem delas próprias, que
muitas vezes conviviam em um triangulo amoroso.
- Meu Deus! – desassossega Morana.
– Querida, hoje não há nada
que interesse ao homem e não à mulher também. Os gêneros não mais estão aprisionados
em estereótipos como “homem não chora e só a mulher pode ser emotiva”. Com o
fim dessa diferenciação, a escolha amorosa deixa de passar necessariamente pelo
sexo oposto, não acha?
– Assunto que ainda não digeri bem, Nathalie.
Desse jeito eu acredito que o lesbianismo só tende a aumentar.
- Homofóbica?
- Não. Deus me livre! Penso
que cada um faz o que achar melhor com o seu corpo. Só não pode permitir o
desrespeito.
- Isso mesmo. O lado
positivo dessa moda é que a curiosidade pode ajudar a dissolver um velho tabu,
não acha?
- Talvez. O que não
concordo mesmo é fazer do sexo uma bagunça geral. Se você extrapola, acaba
perdendo o significado do amor.
- Não é só, Morana. Para
estimular mais ainda a prática sexual entre elas, dar o toque de fantasia e uma
conotação festiva a esses encontros, pode-se recorrer aos ‘sex shops’. Casas que deixaram o submundo e estão cada vez mais
visíveis nas esquinas das grandes cidades. Um sucesso! Frequência garantida,
principalmente, por boa parte da juventude feminina que, todo dia, amanhece
inquieta para interagir com o mundo moderno de hoje, cheio de expectativas.
- Pelo sim pelo não chegou a hora e a vez do sexo
livre, cada um na sua – admite a pintora.
Pausa. Nathalie curiosa:
- Então, Morana, por favor,
me tira uma dúvida. Para você qual a
diferença entre erotismo e pornografia?
– Não sabe?
- Confundo um pouco as
coisas.
- É como o joio do trigo. O erotismo é
algo velado em relação à pornografia, que depende de uma exibição muito mais carnal,
mais corpo.
– Explique melhor.
– Na pornografia a mulher, ou o homem, não passa
de objeto para provocar hiperexcitação nas pessoas obcecadas por sexo. O
erotismo centra mais na arte de conquistar o corpo de alguém pela arte de se
expor.
– Sim.
- Um olhar pode ser erótico, desde que
seja com um olhar cheio de promessas. Bem como também um perfume, um jeito de
mexer o corpo ou mostrar o tornozelo. O erotismo, querida, é misterioso e
mágico ao mesmo tempo. Nada muito explícito, entende?
- Maravilha.
-
Para a escritora Anais Nin,
o erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensáveis
como a poesia.
- Eu, por exemplo,
não tenho pudor com o meu corpo. Acho bonito ficar só calcinha e sutian em casa
– revela Nathalie. - Isso é pornô ou erotismo?
- Erotismo.
Sem desviar da pintora os olhos claros, Nathalie:
- Posso fazer uma pergunta bastante íntima?
- Quer saber o quê?
- Você dá prazer si mesma, pratica hand job?
- Meu Deus, que pergunta?
- Apenas uma curiosidade.
- Uau... Pelo jeito anda lendo muitas revistinhas ou contos
eróticos?
- Posso dizer que sim.
- Bem, toda mulher procura e descobre novas formas de prazer, é
natural para ficar numa boa. Não é um bicho de sete cabeças.
- Dizem os entendidos que nove em cada dez mulheres buscam
prazer solitário, prazer até pouco tempo experimentado mais pelos homens. Acredita?
- Acredito. Essa transformação reflete a própria mudança no
universo feminino. Mas, tem muita gente que diz que não faz isso.
- É algo errado, Morana?
- Não. Tocar em si mesmo, estimular prazer no próprio corpo faz
bem para a saúde, a pessoa goza sem sofrimento. É bom.
Nathalie com um sorriso sapeca nos lábios.
- É muito BOOOOM!!! - expressa com malícia.
- Mas tem que ser moderada, caso contrário cria dependência.
Torna vício..., sempre dá vontade de fazer mais, viu?
- Claro.
- Aí a pessoa começa a se tocar em qualquer lugar, independentemente
de ser um local apropriado. Nesse caso
seria interessante buscar ajuda de um profissional da saúde.
- Posso confessar uma coisa?
- Pode.
- Ha pouco tempo, comprei o Butterfly.
- Que isso?
- Uma borboletinha, não invasiva, que vibra para fazer
estimulação critoriana.
- Nunca ouvi falar.
- Nada mau como fantasia, gostei. É muito prazeroso.
- Sei.
- Diferente de meus dedinhos, diferente de objetos como celular,
desodorante roll on, chuveirinho,
ursinho de pelúcia, banheira de hidromassagem. Como também de almofadas,
frutas, legumes, ou vibrador pirotécnico que roda.
- Entendida do assunto, hein?
Risos. Nathalie entusiasmada:
- Viva as mulheres que sabem dar prazer a si mesmo!!!
- Nem sei o que dizer.
- Bem, bem... Voltando ao filme, Flores Raras é ótimo, precisa
ver.
- Ah, quero sim! – confirma a pintora.
- Vai gostar.
- Acho que sim. Não perco.
- Elas morrem de amores uma pela outra.
- Legal.
Nathalie em tom suspirado:
- Posso te perguntar uma última coisa?
- Sim.
- Não tem mesmo namorado?
- Bem...
- Alguma coisa errada na
pergunta?
- Não há nada de errado em se perguntar uma coisa dessas a uma
amiga. Errado seria não perguntar.
- Talvez. É difícil
entender que uma mulher tão especial não esteja envolvida com alguém.
- Preciso explicar?
- Bem... Se não quer falar,
tudo bem.
- Se não ficar sentida comigo,
prefiro.
- Lógico que não. Mas, no
fundo, no fundo parece ser uma mulher de alma apaixonada.
Pausa. Morana franze a
testa.
- Alma não. O corpo,
talvez.
- Hein?
- Bem, Nathalie, se quer mesmo
saber, há um carinha que saímos de vez em quando.
- Olha!
- Tenho uma ligação muito
doida com ele. É muito divertido, quando aparece rimos à beça.
- Casado?
- Para variar, sim. Mas é
um cara com quem me dou bem na cama, sem envolvimento sentimento algum.
- Assim, sem compromisso
sério! Do tipo pretê ficante, não é?
- Pretê ficante?!...
- Isso mesmo, seu peguete oficial. Aquele
tipo de homem que pensa: porque
comprar a vaca, se você pode beber o leite de graça. Conheço esse
lance, muito comum hoje em dia.
- Não me incomoda. Quando
ele liga, e não estou a fim de sair, invento uma desculpa qualquer e tudo fica
bem. Assim, levo o
namoro de uma forma leve e espontânea. E tenho a capacidade de perceber se
estou sendo usada mais do que usando.
- Massa! Em toda relação há uma troca, tanto de favores, como de
obrigações, mesmo que entre aspas.
- Por aí.
Pausa. Nathalie.
- Por que não tem um filho
com ele?
- Está maluca?
- Uai, você não está aberta
a conseguir um filho independente?
- É diferente. Prefiro recorrer
a um banco de espermas, ou transar com um solteiro que não está disposto a se
comprometer, muito menos que me alimente aquela expectativa de perpetuar o
relacionamento, através de um filho. Não me dei bem no modelo tradicional de
casamento, aquele que oprime, usurpa, dá direito à herança e divisão de bens
materiais. Isso eu não quero nunca mais.
- Melhor assim, Morana.
- Claro. E depois seria
complicado ter um filho com um homem casado que não pensa em se separar da
esposa. Amanhã pode dar problemas. Com ele vivo sem idealizar.
- Então não é nada sério?
- Claro que não. Depois de
alguns tropeços, passei a preferir uma relação mais leve, cada um na sua e com
uma certeza na cabeça: amor é uma substância meio utópica, sem tantas
idealizações.
- Bem, se sua vida continuar ativa, interessante e os encontros,
mesmo que não sejam sequenciais, ainda assim a deixarem satisfeita deve
continuar nessa relação. O tempo corre a seu favor.
- Claro, claro. Hoje em
dia, não quero homem nenhum pegando no meu pé.
- Não?
- Não. Numa relação, quando a
história começa a ter vírgulas demais é porque está chegando a hora de colocar ponto
final.
Risos. Nathalie com os olhos brilhantes:
- Bom ouvir isso.
- Dentro do
conceito de sabedoria erótica, é inteligente quem está junto pelo prazer, não
pela necessidade de ter alguém para se sentir seguro – define Morana, convicta.
Risos. A jovem troça:
- Amiga, então dê graças a
Deus. Esse aí é o tipo da moda. Pensando bem, para nós mulheres que não estamos
preocupadas com o casamento,
não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma linguiça de pouco mais
de 100 gramos, como disse o cronista. Ou vale?
A pintora leva as mãos aos
lábios, contendo o riso. Depois reforça:
- Sou realista, querida. E
você, Nathalie, tem namorado?
- Posso dizer que tenho meus rolinhos.
- Rolinhos?
- Nada sério também. Coisa da juventude
de hoje que transa adoidada, sem nenhum compromisso sentimental.
Risos. Morana:
- Não acha que a rapaziada
anda promovendo muita bandalheira, tudo recheado de muita pornografia e,
extremamente, mais arriscada?
– Acho.
– Está nessa?
– Bem. Estou mais naquela de que um amor vai
curando o outro, enquanto não encontro aquele que não vai me machucar. Minha
bússola já aponta pela causa do amor e da liberdade consciente.
- Olha!
- Cada dia mais eu admiro a
onda dos Streight.
– Que isso?
– Ser contra o sexo promíscuo, exagero no
consumo de bebidas alcoólicas, de droga, de carne vermelha. Sexo para mim, Morana,
agora é coisa mais séria e precisa ser vivida a dois. Tem que ser passaporte
para a entrada no paraíso – brinca a jovem com um largo sorriso no rosto.
– Penso que ando meio ultrapassada,
meio démodé, como diriam os
franceses. Portanto, não sei se entendi bem o que quis dizer. Bem, deixa para
lá...