quinta-feira, setembro 12, 2013

06/VI- ATRÁS DOS OLHOS CLAROS


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Imagem: Internet
 




 

- Muito bem, então quer mesmo deixar de dar aulas na Faculdade?

- Ah, sim. Pretendo. Estou disposta a tirar uma licença sem vencimentos por dois anos – explica Morana.

- Dois anos?

 - Tenho muitos projetos, Nathalie. Mesmo sabendo que é um mercado arriscado, e já não tenho o mesmo fôlego de mocinha, quero dedicar exclusivamente à pintura.

- Cansou de dar aulas?

- Não é isso. Viver para a pintura sempre foi minha meta.

– Que bom!

- De qualquer forma, os pintores só alcançam a realização integral quando o que produzem encantam e entusiasmam a alma. A função máxima da arte é expressar a vida, criar um estado de espírito em que podemos nos instalar, para deixarmos de ser uma coisa para ser outra, em busca pela qualidade de vida e do bem-estar existencial.

- Maravilha.

- Enfim, chega-se ao ponto em que o tamanho de seus sonhos não pode ser limitado pelo espaço do ambiente físico em que vivemos, e convivemos.

- Decidida mesmo?

Pausa. Morana:

- Estou, querida. Jaques Lacan, o psicanalista francês, considerava que os atos, na vida e na história, são raros. Chegou minha hora, pode crer.

- É.

- De fato, o que domina a vida e a história é a repetição. Qualquer um pode passar a vida inteira sem produzir ato algum, só cumprindo o que já era destinado, só preenchendo as expectativas do mundo. Para mim, um ato não é apenas algo inédito, mas algo que vai me transformar radicalmente, que vai produz um novo sujeito.

- Pronto, já me convenceu – brinca a jovem, abrindo mais ainda o sorriso.

- Trabalhar com a pintura é mágico, prazeroso. É tão bom quanto morder uma barra de chocolate da melhor qualidade. Por isso mesmo penso aproximar minha arte à vida das pessoas de forma completa, independente. A arte é uma das coisas que unem o ser humano, plenamente.

- Claro, claro.

 - Pretendo solicitar licença ao Estado por dois anos. Aí, se der certo, posso até pedir exoneração do cargo. Tenho fé que vai dar certo, mesmo sabendo que nem tudo na vida é fácil. Mas, penso positivo. Acho que, quando a gente acredita no sonho, e se empenha para alcançar resultados, nada é melhor para superar obstáculos.

- Claro que sim.

- Sou positivista, sempre. A alegria de viver e a esperança nasceram comigo.

- Estou vendo.

- E, como a vida até aqui acabou sendo generosa comigo, acho que vale a pena arriscar. Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo, ensina Nietzsche.

- Vai dar certo, você é uma artista de muito talento, querida. Sou sua fã, tiete.

- Obrigada.

Pausa. Nathalie:

- Então me fala: quando você passou a se interessar pela arte?

- Comecei a desenhar ainda criança, incentivada pelo meu pai que era professor de desenho no Ginásio. Desde pequenina, ele me colocava numa mesa, desenhava bichos e pedia para eu tentar copiar.

- Legal.

- O hábito se manteve ao longo do período estudantil. A amizade com meu pai contribuiu para entrar no mundo encantado da arte, porque ele acreditava que a educação feminina deveria ir além de bordar.

- Sábio, hein?

- Admiro muito meu velho. Quando completei 18 anos, meu destino foi um só: desembarcar na Capital e me tornar uma pintora a caminho da perfeição. Fiz vestibular e conquistei uma vaga na Escola Guignard e lá estou até hoje, há quinze anos como professora de desenho artístico.

 - Então de quem era aluno, hoje, é colega de trabalho?

Pausa. Morana:

– Ah, sim. Melhor ainda que boa parte deles estudou com o mestre Guignard. Privilégio que só me ajudou.

 - E como absolveu a experiência deles e, ao mesmo tempo, formou personalidade própria?

- Tive oportunidade de estudar com grandes mestres. E depois, trabalhar com Yara Tupinambás, Chanina, Maria Helena Andrés, Inimá, Herculano, Sara Ávila, Wilde Lacerda, Aroldo Mattos... - artistas com personalidades distintas e estilo diferentes – o que tornou mais fácil encontrar meu próprio estilo.

 - Como assim?

 - Quero dizer que a personalidade de cada aprendiz existe por si. Não deve ser anulada por nada nem por ninguém, ainda que o modelo inspirador tenha grande influência. O segredo reside em saber o que se deve aprender e com quem. Percebe?

- Claro.

 – Graças a cada um dele, encontrei a minha própria personalidade como artista plástica. Mas, posso dizer que a minha experiência mais importante foi com a pintora Yara Tupinambás. Além de ter sido sua assistente na produção de painéis artísticos para empresas e espaços públicos, com ela tive a vantagem de ampliar e educar a visão do mundo através da história da arte.

- Acho que seus alunos vão sentir muito a sua falta.

 - Como eu também vou sentir falta deles, da sala de aula, eu sei. Mas, meu sonho é a pintura em sua plenitude.

 – Vai em frente, querida – estimula Nathalie.

 – Obrigada.

 – Só sinto uma coisa: estava inclinada a enfrentar o vestibular da Guignard só para ser sua aluna.

 - Não me diga?

 - Verdade.

- E a escola de Arquitetura?

 - Poderia cursar as duas.

- Nada mal.

Nathalie toma as mãos da pintora, beija-as. E nelas encosta o rosto, levemente.

- Posso fazer outra perguntinha indiscreta?

- Não fica me arranjando tantas perguntas assim, que fico sem jeito, viu?

- Mas essa não vai te chatear, prometo.

- O que é?

 - Ainda pensa, um dia, lá no futuro, viver com alguém?

 - Como já disse, acho que não aguentaria um homem dia e noite na minha cola. Ainda estou juntando as peças o desastre anterior, montando. Quero tempo para meu eu e botar a cabeça no lugar. Preciso respirar e pensar em mim sem pressa, comigo tem de ser assim.

- Compreendo.

 - Platão dizia que antigamente as pessoas se bastavam. Eram hermafroditas. Ultimamente, ando mais ou menos nessa linha.

 - Bem...

 - Não quero errar mais pelo mundo em busca de outra cara metade. Na verdade, a palavra apaixonar anda meio apagada de meu dicionário, pelo menos por enquanto.

 - Está feliz?

- Há muito não me pergunto sobre isso.

- Deveria aproveitar a fase e se questionar, não?

A pintora, depois de pensar um pouco:

- Quero ser livre. Livre. Até para pensar no assunto.

- Livre?

- Sim, livre. E você, Nathalie, também pensa como eu?

 - Talvez. Mas, sem nunca deixar de dar muitos beijos na boca por aí.

Risos. Morana em tom de brincadeira:

 - Maluquinha!

 - Adoro beijar. Por isso vivo me perguntando quem inventou isso da gente beijar, e por será que é tão gostoso?

- Muito bom mesmo!

- Quando topo alguém que beija bem, fico horas e horas beijando, beijando como se procurasse algo a beber naquela pessoa. Danado de bom, não é? Eu fico toda molhadinha...

- Maluca!

– Por que não?  Assim também me realizo.

 - Parabéns, fogosinha.

- Sou mesmo. Um beijo bem dado produz endorfina, o hormônio do prazer. E para completar, movimenta 29 músculos no corpo, sabia?

- Tem razão. Faz um bem magnífico para a saúde. Não é isso que quer dizer?

- Duvido que uma mulher como você, de vez em quando, não se surpreende a sonhar com uma vida mais afetuosa com muitos beijos, abraços e coisas mais?

- Ã-Hã.

- Eu, por exemplo, tenho uma excitação de louca, querida.

 - Tão impetuosa assim?

- Cheia, muito cheia de amor para dar.

- Bom.

- Então, Morana, acha que passaria o resto da vida sem eles?

 - Claro que não, mas não me iludo. Estou tão envolvida com meu trabalho que procuro não dar tempo à minha cabeça para pensar tanto em outros lances.

 - É bom pensar, o coração agradece e agita com mais alegria.

A pintora franze a testa. Nathalie:

 - Falei bobagens?

 - Imagina. Homens! Cada dia penso menos neles, porque sei que os que estão aí estão bem longe do que imagino. Comigo é assim, mesmo quando encontro um parceiro que vale a pena, depois de uma noite gostosa, quero apenas que ele fique para o café da manhã, não necessariamente para o almoço. Aprendi muito, querida.

- E o casado?

 - O Vinícius, que não é de Morais, é um sujeito legal. Ele é bom porque não me faz pensar, até porque não é aquela coisa! Como disse, é o tipo que faz a gente sentir bem quando estamos juntos. Isso é legal.

 - Por quê?

 - Não sei.

 - Então goza legal com ele?

 - Quer saber: aquele gozo sublime..., nem com ele, nem com homem nenhum.

 - Não?

Pausa. Morana:

- Orgasmo feminino ainda é coisa que a maioria das mulheres pouco entende. E os homens muito menos.

– Isso eu sei.

 – Pelo fato de ser um lance feminino que se dá sem expelir nada, uma mulher pode fingir um gozo até para ficar livre do parceiro naquele momento. A natureza nos privilegiou com isso. Não apresentamos nenhuma prova evidente de que o fato não aconteceu.

– É.

 - O desejo da mulher, Nathalie, passa por outros caminhos, diferente dos do homem.

 - Eu sei.

 - Pois é, antes da fase do desejo, a mulher precisa de estimulação para ter vontade de fazer sexo, precisa ser tocada, acariciada. O desejo, para nós não brota de forma quase espontânea como se dá com os homens. Para eles, a ocorrência de uma fantasia ou de um estímulo visual já é o suficiente para desencadear a libido, não é assim?

- Está certa, precisamos de mais.

- Precisamos sentir acolhidas, ameigadas e estimuladas. Ah, quer saber? Até hoje o prazer sexual que melhor conheço é o das minhas próprias mãos – diz Morana.

 - É mesmo?

- Chocou-se, Nathalie?

 - De jeito nenhum. Como disse, nunca tive dificuldades em masturbar. Até acho que é uma boa maneira da gente se conhecer melhor.

 - Eu também.

- Certamente.

- Não sei explicar de onde vem tanto desejo. Quando não rola ninguém no meu pedaço, dou meu jeito. Por mim, eu transava todo dia, toda hora – brinca a jovem.

Pausa. Morana:

 - Nada contra, eu também tenho muita vontade de fazer sexo. Igualmente posso dizer que é dentro das portas trancadas do meu quarto que, ouvindo uma música bem suave, sinto mais vontade de me tocar, praticar o autoerotismo. É saudável. Gera boas sensações.

- Ã-Hã.

- A fantasia é o principal motor da masturbação. Você pode fantasiar fazendo sexo com celebridades, artistas de filmes pornô e o que mais for do seu agrado. A masturbação é capaz de produzir os melhores orgasmos da sua vida inteira. É o seu corpo, livre para fazer com ele o que a gente quiser.

- Claro.

- Não causa preocupações a respeito de gravidez indesejada ou qualquer tipo de doença sexualmente transmissível. Diferentemente, do sexo com alguém, a masturbação é cem por cento gratuita. É da natureza.

- Dá muito prazer, não é mesmo?

- Cientista defendem que é uma das boas maneiras de ter uma vida saudável, oferecendo benefícios à saúde. Pode curar insônia, estresse, ansiedade, cólicas menstruais, depressão e pode, inclusive, estimular o sistema imunológico. Os pesquisadores mais animados, defendem que é também uma forma de praticar exercício físico, que pode queimar bastante calorias, embora não substitua a academia.

- Vicia?

- Masturbar-se quando se deseja não representa problema algum, porque dura o tempo do entusiasmo. Ninguém tem que se preocupar. O que difere da masturbação praticada por um viciado em sexo é a sensação que sente logo após o gozo. Para o viciado sexual, não há relaxamento ou satisfação e, sim, frustração, causando nervosismo extremo.

- Então pode criar dependência física e psicológica?

- Pode, sim - alerta Morana.

Pausa. Nathalie olha a amiga de soslaio, com os olhos sorridentes.

- Mas que é uma coisa muito legal é. Tão linda! Tão boa!

- Sim. Por isso mesmo que a masturbação é conhecida desde a pré-história.

- Sério?

- São muitas estátuas ou imagens talhadas em pedra, expostas em museus espalhados pelo mundo, que nos mostram o ato masturbatório com detalhes impressionantes. Um museu de Malta exibe duas estátuas interessantes. Uma retratando um homem se masturbando, datada de 5.000 anos a.C. Outra, uma mulher com as pernas abertas, fazendo a mesma brincadeira solitária consigo mesma, data de 4.000 a.C.

Pausa. Nathalie:

- Certa vez li que, hoje em dia, nove entre dez mulheres se masturbam?

- Acredito. Nunca me preocupei com estatísticas.

- Significa que essa prática não é exclusividade masculina.

- Ah, sim. Acontece que a maioria das mulheres não conta que faz isso, pode crer. Afinal, como ninguém quer dar recibo, nem para si mesmo, do gosto pela coisa, fica difícil saber se as estatísticas conferem a realidade prevista.

- No calendário 2013 de exposições da Photographer’s Gallery, em Londres, marcadas por explorar imagens da realidade de sexo, prostituição e drogas, a casa exibiu a mostra deVerdades: Fotografia, Maternidade e Identidade’, de Leigh Ledare, que causou muita polêmica em Londres. Leu alguma coisa sobre isso?

- Não li. Por quê? 

- Ledare exibiu imagens de sua própria mãe, Tina Peterson, se masturbando.

- Nada contra, mas na frente de um filho adulto? Ainda se deixar fotografar por ele! É demais, não?

- Tudo com autorização dela.

- Olha, só!

- Consciência total. Tanto que a ex-bailarina não interveio na iniciativa. Pelo contrário, estimulou o filho a expor as fotos num espaço público.

- Estou pasma! Até porque foram além de uma das fantasias mais difíceis de administrar, uma atitude incestuosa. 

- Mas, não foram essas fotos que mais causaram perturbações nos visitantes.

- Não?

- As que mostravam Tina nua e, completamente, depilada recebendo sexo oral de um homem mais novo, surpreenderam mais.

- Chega, chega. Melhor virar o disco, não?

- Tem razão.

Depois de uma pequena pausa, Nathalie com um sorriso curioso:

- Bem, ainda acho que é melhor fazer essas coisas a dois, juntinhos, não acha?

- Quando o casal se entende é óbvio que fica mais gostoso, bem mais excitante.

A garota, revirando-se na poltrona, afirma:

- Sabe de uma coisa, Morana, eu acho que também nunca me apaixonei de verdade por alguém.

- Fala sério?

- Sim.

- Então me conta quando foi que descobriu a sexualidade, Nathalie?

- A primeira vez que senti sexo pulsar no meu corpo tinha pouco mais treze anos, quando um primo, de vez em quando, me bolinava. Era um rapazinho dois, três anos mais velho. Bonitinho, mas com aquele cheiro esquisito, insosso. Não dificultava as coisas, apesar de saber que era proibido, mesmo ele só passando a mão nas minhas pernas.

- Meu Deus, então foi vítima de pedofilia?

- O quê?!... Não.

- Como não! - exclama a pintora em tom ligeiramente crítico. - Você era uma criança!

Nathalie, com malícia:

- Nem tanto. Era mocinha formada, já sangrava. Cabaça como todas nessa idade, mas descobrindo que o corpo dava prazer. Não nego que gostava dele me tocar.

- Nossa! E como acontecia?

- No meu quarto.

- Chamava o rapaz para lá?

- Não. Não sei como, mas quase toda manhã, ele aproveitava que meus pais saiam para trabalhar, despistava a empregada e subia até o meus aposentos, achando que ia me encontrar dormindo.

- E aí?

- Como repousava com o rosto virado para a parede, ele descobria meu traseiro e ficava ali, agachado, me vendo só de calcinha.

- Não tocava em você?

- Passava as mãos sobre minha bunda, minha coxas, tão serenamente que mal percebia. Quando encostava o rosto na minha pele, sentia sua respiração.

- Então ficava acordada?

- Sim, mas nem mexia. Com a cabeça enterrada no travesseiro, fingia que dormia.

- Danadinha!

- Tudo muito novo para mim. Posso dizer que percebia uma química diferente, excitante. Confesso que sentia comichão pelo corpo e a vulva molhadinha, mas tinha certo medo de facilitar mais as coisas para ele.

- Quanto tempo durou isso?

- Ah, não sei bem. Um mês, talvez. Nunca falamos sobre isso. Ele achava que eu não percebia nada. Depois, o cara foi estudar em outra cidade. E quando nos víamos, um evitava o outro.

- Ainda bem, Nathalie. Poderia ter acontecido o pior.

- Apesar de sapeca, era sabida e percebia, sim, que os homens começavam a me cobiçar. Curtia aquilo como toda adolescente, e foi aí que comecei a perder o pudor do corpo, principalmente diante do espelho.

- Pelo jeito não carrega nenhum trauma.

- Trauma, propriamente dito, não. Mas, das vezes que transei com homens, vi que tenho uma verdadeira aversão ao esperma, ao odor masculino. Sinto nojo. Ai, me dá um asco, náusea!

- Pode ser por causa do cheiro do seu primo, não?

- Talvez. Era tudo muito rápido e preciso. Não me lembro dele ter ejaculado na minha frente, muito menos molhado minha pele, a roupa de cama ou o piso do quarto.

- Ele não era bobo nada, sabia fazer e esconder.

- Pode ser. Acho que nasci para detestar espermas. Ai, que nojo!

- Meio estranho, mas...

- Bobagens. Ai, Morana, o tempo passou e nem vi as horas passarem. Está tarde, Morana, Acho melhor eu ir nessa.

- Meu Deus, nem falamos mais sobre o seu quadro. Quer levá-lo?

- Vou deixar para amanhã. Tenho que ir.

- Melhor assim, Nathalie. Podemos combinar no mesmo horário?

- Tudo bem. Posso lhe dizer uma última coisa?

- Lógico.

- Seus olhos dizem muito de você.

- Hummmmmm!

- Você é 10, Morana. Cem. Mil.

Risos. As duas amigas se despedem no elevador, com beijinhos acalorados nas faces. Morana volta para o Atelier e fica ali até mais tarde, mortificada por um sentimento ligeiramente agradável. No ar, ainda permanecia a fragrância ativa do perfume da jovem.

Antes de sair para o seu quarto de dormir, a pintora desenha um sorriso malicioso nos lábios, murmurando de si para si:

- Você, Nathalie, é mais inesquecível do que nunca. Só tenho que agradecer por ter me despertado no coração algo tão sublime. É uma garota maravilhosa!

 

 

 

 

VI
ATRÁS DOS OLHOS CLAROS
 
 
- Muito bem, então quer mesmo deixar de dar aulas na Faculdade?
- Ah, sim. Pretendo. Estou disposta a tirar uma licença sem vencimentos por dois anos – explica Morana.
- Dois anos?
 - Tenho muitos projetos, Nathalie. Mesmo sabendo que é um mercado arriscado, e já não tenho o mesmo fôlego de mocinha, quero dedicar exclusivamente à pintura.
- Cansou de dar aulas?
- Não é isso. Viver para a pintura sempre foi minha meta.
– Que bom!
- De qualquer forma, os pintores só alcançam a realização integral quando o que produzem encantam e entusiasmam a alma. A função máxima da arte é expressar a vida, criar um estado de espírito em que podemos nos instalar, para deixarmos de ser uma coisa para ser outra, em busca pela qualidade de vida e do bem-estar existencial.
- Maravilha.
- Enfim, chega-se ao ponto em que o tamanho de seus sonhos não pode ser limitado pelo espaço do ambiente físico em que vivemos, e convivemos.
- Decidida mesmo?
Pausa. Morana:
- Estou, querida. Jaques Lacan, o psicanalista francês, considerava que os atos, na vida e na história, são raros. Chegou minha hora, pode crer.
- É.
- De fato, o que domina a vida e a história é a repetição. Qualquer um pode passar a vida inteira sem produzir ato algum, só cumprindo o que já era destinado, só preenchendo as expectativas do mundo. Para mim, um ato não é apenas algo inédito, mas algo que vai me transformar radicalmente, que vai produz um novo sujeito.
- Pronto, já me convenceu – brinca a jovem, abrindo mais ainda o sorriso.
- Trabalhar com a pintura é mágico, prazeroso. É tão bom quanto morder uma barra de chocolate da melhor qualidade. Por isso mesmo penso aproximar minha arte à vida das pessoas de forma completa, independente. A arte é uma das coisas que unem o ser humano, plenamente.
- Claro, claro.
 - Pretendo solicitar licença ao Estado por dois anos. Aí, se der certo, posso até pedir exoneração do cargo. Tenho fé que vai dar certo, mesmo sabendo que nem tudo na vida é fácil. Mas, penso positivo. Acho que, quando a gente acredita no sonho, e se empenha para alcançar resultados, nada é melhor para superar obstáculos.
- Claro que sim.
- Sou positivista, sempre. A alegria de viver e a esperança nasceram comigo.
- Estou vendo.
- E, como a vida até aqui acabou sendo generosa comigo, acho que vale a pena arriscar. Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo, ensina Nietzsche.
- Vai dar certo, você é uma artista de muito talento, querida. Sou sua fã, tiete.
- Obrigada.
Pausa. Nathalie:
- Então me fala: quando você passou a se interessar pela arte?
- Comecei a desenhar ainda criança, incentivada pelo meu pai que era professor de desenho no Ginásio. Desde pequenina, ele me colocava numa mesa, desenhava bichos e pedia para eu tentar copiar.
- Legal.
- O hábito se manteve ao longo do período estudantil. A amizade com meu pai contribuiu para entrar no mundo encantado da arte, porque ele acreditava que a educação feminina deveria ir além de bordar.
- Sábio, hein?
- Admiro muito meu velho. Quando completei 18 anos, meu destino foi um só: desembarcar na Capital e me tornar uma pintora a caminho da perfeição. Fiz vestibular e conquistei uma vaga na Escola Guignard e lá estou até hoje, há quinze anos como professora de desenho artístico.
 - Então de quem era aluno, hoje, é colega de trabalho?
Pausa. Morana:
– Ah, sim. Melhor ainda que boa parte deles estudou com o mestre Guignard. Privilégio que só me ajudou.
 - E como absolveu a experiência deles e, ao mesmo tempo, formou personalidade própria?
- Tive oportunidade de estudar com grandes mestres. E depois, trabalhar com Yara Tupinambás, Chanina, Maria Helena Andrés, Inimá, Herculano, Sara Ávila, Wilde Lacerda, Aroldo Mattos... - artistas com personalidades distintas e estilo diferentes – o que tornou mais fácil encontrar meu próprio estilo.
 - Como assim?
 - Quero dizer que a personalidade de cada aprendiz existe por si. Não deve ser anulada por nada nem por ninguém, ainda que o modelo inspirador tenha grande influência. O segredo reside em saber o que se deve aprender e com quem. Percebe?
- Claro.
 – Graças a cada um dele, encontrei a minha própria personalidade como artista plástica. Mas, posso dizer que a minha experiência mais importante foi com a pintora Yara Tupinambás. Além de ter sido sua assistente na produção de painéis artísticos para empresas e espaços públicos, com ela tive a vantagem de ampliar e educar a visão do mundo através da história da arte.
- Acho que seus alunos vão sentir muito a sua falta.
 - Como eu também vou sentir falta deles, da sala de aula, eu sei. Mas, meu sonho é a pintura em sua plenitude.
 – Vai em frente, querida – estimula Nathalie.
 – Obrigada.
 – Só sinto uma coisa: estava inclinada a enfrentar o vestibular da Guignard só para ser sua aluna.
 - Não me diga?
 - Verdade.
- E a escola de Arquitetura?
 - Poderia cursar as duas.
- Nada mal.
Nathalie toma as mãos da pintora, beija-as. E nelas encosta o rosto, levemente.
- Posso fazer outra perguntinha indiscreta?
- Não fica me arranjando tantas perguntas assim, que fico sem jeito, viu?
- Mas essa não vai te chatear, prometo.
- O que é?
 - Ainda pensa, um dia, lá no futuro, viver com alguém?
 - Como já disse, acho que não aguentaria um homem dia e noite na minha cola. Ainda estou juntando as peças o desastre anterior, montando. Quero tempo para meu eu e botar a cabeça no lugar. Preciso respirar e pensar em mim sem pressa, comigo tem de ser assim.
- Compreendo.
 - Platão dizia que antigamente as pessoas se bastavam. Eram hermafroditas. Ultimamente, ando mais ou menos nessa linha.
 - Bem...
 - Não quero errar mais pelo mundo em busca de outra cara metade. Na verdade, a palavra apaixonar anda meio apagada de meu dicionário, pelo menos por enquanto.
 - Está feliz?
- Há muito não me pergunto sobre isso.
- Deveria aproveitar a fase e se questionar, não?
A pintora, depois de pensar um pouco:
- Quero ser livre. Livre. Até para pensar no assunto.
- Livre?
- Sim, livre. E você, Nathalie, também pensa como eu?
 - Talvez. Mas, sem nunca deixar de dar muitos beijos na boca por aí.
Risos. Morana em tom de brincadeira:
 - Maluquinha!
 - Adoro beijar. Por isso vivo me perguntando quem inventou isso da gente beijar, e por será que é tão gostoso?
- Muito bom mesmo!
- Quando topo alguém que beija bem, fico horas e horas beijando, beijando como se procurasse algo a beber naquela pessoa. Danado de bom, não é? Eu fico toda molhadinha...
- Maluca!
– Por que não?  Assim também me realizo.
 - Parabéns, fogosinha.
- Sou mesmo. Um beijo bem dado produz endorfina, o hormônio do prazer. E para completar, movimenta 29 músculos no corpo, sabia?
- Tem razão. Faz um bem magnífico para a saúde. Não é isso que quer dizer?
- Duvido que uma mulher como você, de vez em quando, não se surpreende a sonhar com uma vida mais afetuosa com muitos beijos, abraços e coisas mais?
- Ã-Hã.
- Eu, por exemplo, tenho uma excitação de louca, querida.
 - Tão impetuosa assim?
- Cheia, muito cheia de amor para dar.
- Bom.
- Então, Morana, acha que passaria o resto da vida sem eles?
 - Claro que não, mas não me iludo. Estou tão envolvida com meu trabalho que procuro não dar tempo à minha cabeça para pensar tanto em outros lances.
 - É bom pensar, o coração agradece e agita com mais alegria.
A pintora franze a testa. Nathalie:
 - Falei bobagens?
 - Imagina. Homens! Cada dia penso menos neles, porque sei que os que estão aí estão bem longe do que imagino. Comigo é assim, mesmo quando encontro um parceiro que vale a pena, depois de uma noite gostosa, quero apenas que ele fique para o café da manhã, não necessariamente para o almoço. Aprendi muito, querida.
- E o casado?
 - O Vinícius, que não é de Morais, é um sujeito legal. Ele é bom porque não me faz pensar, até porque não é aquela coisa! Como disse, é o tipo que faz a gente sentir bem quando estamos juntos. Isso é legal.
 - Por quê?
 - Não sei.
 - Então goza legal com ele?
 - Quer saber: aquele gozo sublime..., nem com ele, nem com homem nenhum.
 - Não?
Pausa. Morana:
- Orgasmo feminino ainda é coisa que a maioria das mulheres pouco entende. E os homens muito menos.
– Isso eu sei.
 – Pelo fato de ser um lance feminino que se dá sem expelir nada, uma mulher pode fingir um gozo até para ficar livre do parceiro naquele momento. A natureza nos privilegiou com isso. Não apresentamos nenhuma prova evidente de que o fato não aconteceu.
– É.
 - O desejo da mulher, Nathalie, passa por outros caminhos, diferente dos do homem.
 - Eu sei.
 - Pois é, antes da fase do desejo, a mulher precisa de estimulação para ter vontade de fazer sexo, precisa ser tocada, acariciada. O desejo, para nós não brota de forma quase espontânea como se dá com os homens. Para eles, a ocorrência de uma fantasia ou de um estímulo visual já é o suficiente para desencadear a libido, não é assim?
- Está certa, precisamos de mais.
- Precisamos sentir acolhidas, ameigadas e estimuladas. Ah, quer saber? Até hoje o prazer sexual que melhor conheço é o das minhas próprias mãos – diz Morana.
 - É mesmo?
- Chocou-se, Nathalie?
 - De jeito nenhum. Como disse, nunca tive dificuldades em masturbar. Até acho que é uma boa maneira da gente se conhecer melhor.
 - Eu também.
- Certamente.
- Não sei explicar de onde vem tanto desejo. Quando não rola ninguém no meu pedaço, dou meu jeito. Por mim, eu transava todo dia, toda hora – brinca a jovem.
Pausa. Morana:
 - Nada contra, eu também tenho muita vontade de fazer sexo. Igualmente posso dizer que é dentro das portas trancadas do meu quarto que, ouvindo uma música bem suave, sinto mais vontade de me tocar, praticar o autoerotismo. É saudável. Gera boas sensações.
- Ã-Hã.
- A fantasia é o principal motor da masturbação. Você pode fantasiar fazendo sexo com celebridades, artistas de filmes pornô e o que mais for do seu agrado. A masturbação é capaz de produzir os melhores orgasmos da sua vida inteira. É o seu corpo, livre para fazer com ele o que a gente quiser.
- Claro.
- Não causa preocupações a respeito de gravidez indesejada ou qualquer tipo de doença sexualmente transmissível. Diferentemente, do sexo com alguém, a masturbação é cem por cento gratuita. É da natureza.
- Dá muito prazer, não é mesmo?
- Cientista defendem que é uma das boas maneiras de ter uma vida saudável, oferecendo benefícios à saúde. Pode curar insônia, estresse, ansiedade, cólicas menstruais, depressão e pode, inclusive, estimular o sistema imunológico. Os pesquisadores mais animados, defendem que é também uma forma de praticar exercício físico, que pode queimar bastante calorias, embora não substitua a academia.
- Vicia?
- Masturbar-se quando se deseja não representa problema algum, porque dura o tempo do entusiasmo. Ninguém tem que se preocupar. O que difere da masturbação praticada por um viciado em sexo é a sensação que sente logo após o gozo. Para o viciado sexual, não há relaxamento ou satisfação e, sim, frustração, causando nervosismo extremo.
- Então pode criar dependência física e psicológica?
- Pode, sim - alerta Morana.
Pausa. Nathalie olha a amiga de soslaio, com os olhos sorridentes.
- Mas que é uma coisa muito legal é. Tão linda! Tão boa!
- Sim. Por isso mesmo que a masturbação é conhecida desde a pré-história.
- Sério?
- São muitas estátuas ou imagens talhadas em pedra, expostas em museus espalhados pelo mundo, que nos mostram o ato masturbatório com detalhes impressionantes. Um museu de Malta exibe duas estátuas interessantes. Uma retratando um homem se masturbando, datada de 5.000 anos a.C. Outra, uma mulher com as pernas abertas, fazendo a mesma brincadeira solitária consigo mesma, data de 4.000 a.C.
Pausa. Nathalie:
- Certa vez li que, hoje em dia, nove entre dez mulheres se masturbam?
- Acredito. Nunca me preocupei com estatísticas.
- Significa que essa prática não é exclusividade masculina.
- Ah, sim. Acontece que a maioria das mulheres não conta que faz isso, pode crer. Afinal, como ninguém quer dar recibo, nem para si mesmo, do gosto pela coisa, fica difícil saber se as estatísticas conferem a realidade prevista.
- No calendário 2013 de exposições da Photographer’s Gallery, em Londres, marcadas por explorar imagens da realidade de sexo, prostituição e drogas, a casa exibiu a mostra deVerdades: Fotografia, Maternidade e Identidade’, de Leigh Ledare, que causou muita polêmica em Londres. Leu alguma coisa sobre isso?
- Não li. Por quê? 
- Ledare exibiu imagens de sua própria mãe, Tina Peterson, se masturbando.
- Nada contra, mas na frente de um filho adulto? Ainda se deixar fotografar por ele! É demais, não?
- Tudo com autorização dela.
- Olha, só!
- Consciência total. Tanto que a ex-bailarina não interveio na iniciativa. Pelo contrário, estimulou o filho a expor as fotos num espaço público.
- Estou pasma! Até porque foram além de uma das fantasias mais difíceis de administrar, uma atitude incestuosa. 
- Mas, não foram essas fotos que mais causaram perturbações nos visitantes.
- Não?
- As que mostravam Tina nua e, completamente, depilada recebendo sexo oral de um homem mais novo, surpreenderam mais.
- Chega, chega. Melhor virar o disco, não?
- Tem razão.
Depois de uma pequena pausa, Nathalie com um sorriso curioso:
- Bem, ainda acho que é melhor fazer essas coisas a dois, juntinhos, não acha?
- Quando o casal se entende é óbvio que fica mais gostoso, bem mais excitante.
A garota, revirando-se na poltrona, afirma:
- Sabe de uma coisa, Morana, eu acho que também nunca me apaixonei de verdade por alguém.
- Fala sério?
- Sim.
- Então me conta quando foi que descobriu a sexualidade, Nathalie?
- A primeira vez que senti sexo pulsar no meu corpo tinha pouco mais treze anos, quando um primo, de vez em quando, me bolinava. Era um rapazinho dois, três anos mais velho. Bonitinho, mas com aquele cheiro esquisito, insosso. Não dificultava as coisas, apesar de saber que era proibido, mesmo ele só passando a mão nas minhas pernas.
- Meu Deus, então foi vítima de pedofilia?
- O quê?!... Não.
- Como não! - exclama a pintora em tom ligeiramente crítico. - Você era uma criança!
Nathalie, com malícia:
- Nem tanto. Era mocinha formada, já sangrava. Cabaça como todas nessa idade, mas descobrindo que o corpo dava prazer. Não nego que gostava dele me tocar.
- Nossa! E como acontecia?
- No meu quarto.
- Chamava o rapaz para lá?
- Não. Não sei como, mas quase toda manhã, ele aproveitava que meus pais saiam para trabalhar, despistava a empregada e subia até o meus aposentos, achando que ia me encontrar dormindo.
- E aí?
- Como repousava com o rosto virado para a parede, ele descobria meu traseiro e ficava ali, agachado, me vendo só de calcinha.
- Não tocava em você?
- Passava as mãos sobre minha bunda, minha coxas, tão serenamente que mal percebia. Quando encostava o rosto na minha pele, sentia sua respiração.
- Então ficava acordada?
- Sim, mas nem mexia. Com a cabeça enterrada no travesseiro, fingia que dormia.
- Danadinha!
- Tudo muito novo para mim. Posso dizer que percebia uma química diferente, excitante. Confesso que sentia comichão pelo corpo e a vulva molhadinha, mas tinha certo medo de facilitar mais as coisas para ele.
- Quanto tempo durou isso?
- Ah, não sei bem. Um mês, talvez. Nunca falamos sobre isso. Ele achava que eu não percebia nada. Depois, o cara foi estudar em outra cidade. E quando nos víamos, um evitava o outro.
- Ainda bem, Nathalie. Poderia ter acontecido o pior.
- Apesar de sapeca, era sabida e percebia, sim, que os homens começavam a me cobiçar. Curtia aquilo como toda adolescente, e foi aí que comecei a perder o pudor do corpo, principalmente diante do espelho.
- Pelo jeito não carrega nenhum trauma.
- Trauma, propriamente dito, não. Mas, das vezes que transei com homens, vi que tenho uma verdadeira aversão ao esperma, ao odor masculino. Sinto nojo. Ai, me dá um asco, náusea!
- Pode ser por causa do cheiro do seu primo, não?
- Talvez. Era tudo muito rápido e preciso. Não me lembro dele ter ejaculado na minha frente, muito menos molhado minha pele, a roupa de cama ou o piso do quarto.
- Ele não era bobo nada, sabia fazer e esconder.
- Pode ser. Acho que nasci para detestar espermas. Ai, que nojo!
- Meio estranho, mas...
- Bobagens. Ai, Morana, o tempo passou e nem vi as horas passarem. Está tarde, Morana, Acho melhor eu ir nessa.
- Meu Deus, nem falamos mais sobre o seu quadro. Quer levá-lo?
- Vou deixar para amanhã. Tenho que ir.
- Melhor assim, Nathalie. Podemos combinar no mesmo horário?
- Tudo bem. Posso lhe dizer uma última coisa?
- Lógico.
- Seus olhos dizem muito de você.
- Hummmmmm!
- Você é 10, Morana. Cem. Mil.
Risos. As duas amigas se despedem no elevador, com beijinhos acalorados nas faces. Morana volta para o Atelier e fica ali até mais tarde, mortificada por um sentimento ligeiramente agradável. No ar, ainda permanecia a fragrância ativa do perfume da jovem.
Antes de sair para o seu quarto de dormir, a pintora desenha um sorriso malicioso nos lábios, murmurando de si para si:
- Você, Nathalie, é mais inesquecível do que nunca. Só tenho que agradecer por ter me despertado no coração algo tão sublime. É uma garota maravilhosa!
 

 
 
 
 * FBN© 2013 - ATRÁS DOS OLHOS CLAROS – Capítulo VI - Categoria: Romance -  Autor: Welington Almeida Pinto - Texto original em português, traduzido pela Google - Ilust.: Imagens Internet  – Link: http://lesbias.blogspot.com.br/2013/09/6vi-nem-dama-nem-valete.html?zx=30bcc25a02a4a08f
 
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